Duas mil pessoas se reuniram neste sábado (6), em frente à capela Nossa Senhora da Conceição, no bairro rural da Jacutinga, em Ribeirão do Pinhal (Norte Pioneiro), para celebrar o Dia de Reis. A tradição da folia organizada pela família Dutra e amigos atravessa gerações. O evento completou 85 anos neste fim de semana e desde 2019 faz parte do Calendário Oficial de Eventos Turísticos do Estado do Paraná.

A celebração católica, de origem portuguesa em homenagem aos três Reis Magos, Baltazar, Belchior e Gaspar, que viajaram pelo oriente seguindo uma estrela para adorar o filho de Deus, foi trazida de Minas Gerais em 1939, pelo agricultor e patriarca da família, Ambrósio Dutra da Silva e pela esposa Maria da Conceição. A folia de Ribeirão do Pinhal atrai participantes de diversas regiões do estado e do país, que viajam à Jacutinga para pedidos, agradecimentos e para demostrar devoção.

Imagem ilustrativa da imagem Folia de Reis: tradição que resiste ao tempo em Ribeirão do Pinhal
| Foto: Priscila Dutra - Especial para a FOLHA

A peregrinação geralmente começa no dia 27 de dezembro, com um ritual de passagem da bandeira para os festeiros do próximo ano. A partir daí, os foliões, como são chamadas as pessoas que acompanham as visitas pelas casas dos devotos, percorrem as áreas rurais e urbanas de Ribeirão do Pinhal, e também passam por municípios da região até retornar ao bairro da Jacutinga para festa de 6 de janeiro. “As famílias que aceitam receber a bandeira pedem inserção aos Santos Reis para diversos motivos e em agradecimentos fazem doações para festa”, explicou o comerciante Amado Dutra.

Um dos exemplos dessa fé é o relato do aposentado José Lopes Neto, que atualmente mora em Campinas (SP). Ele conhece a Folia de Reis desde a infância e sempre teve grande admiração. E foi num momento de aflição com sua nora, acometida por um câncer, que ele se apegou a essa fé e acredita que ela recebeu uma grande benção. “Minha nora Juliana estava muito doente e eu a colocava nas minhas orações, que Santos Reis intercedessem por ela para conseguir a cura dessa doença tão terrível. No fim do ano passado ela teve uma recuperação extraordinária. Por isso fiz questão de vir agradecer e, se no próximo ano ela estiver completamente recuperada, também virá para agradecer pessoalmente”, disse emocionado.

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| Foto: Priscila Dutra - Especial para a FOLHA

Em 2024, os festeiros são descendentes (filha, nora, netos e bisnetos) de Bertolino Timóteo e Maria Cândida Dutra da Silva. “Aceitamos o desafio de organizar essa festa tão importante para todos nós como uma forma de homenagear nossos avós que nos ensinaram toda essa tradição”, afirmou Sandra Dutra, uma das festeiras.

De acordo com os festeiros, dezenas de voluntários, descendentes de Ambrósio Dutra e outros colaboradores que não são parentes, mas fazem questão de participar, decoram o salão, preparam o local com todos os paramentos que são tradicionais para a chegada da bandeira e os foliões até o presépio. E também servem sanduíches, refeições, refrigerantes e sorvetes, preparados com carinho e distribuídos gratuitamente. Os foliões relatam que desde que a festa começou criou-se uma regra pelos organizadores de que nada poderia ser vendido nesse dia, então não são permitidos ambulantes no local.

Além da comida farta servida no dia 6, a Festa de Reis da Jacutinga tem como característica a música que embala a peregrinação. Instrumentos de corda e percussão enfeitados com fitas coloridas e flores, o embaixador – que é o líder do grupo de foliões -, os músicos amadores e os bastiões ou palhaços dão o tom dessa manifestação folclórica. O embaixador dessa companhia, José de Souza, de 86 anos, conta que há mais de 60 anos participa da festa e considera isso um compromisso assumido de coração. “Muito mais que só festa, para mim é uma missão que o tio Abraão Dutra, o primeiro embaixador, me passou e sigo fazendo até quando Deus me permitir. Fico muito feliz em ver meu filho seguindo meus passos”, afirma Souza.

HISTÓRIA

Em meados da década de 1930, o agricultor Ambrósio Dutra da Silva, com a esposa Maria da Conceição e filhos saíram de São Sebastião do Paraíso, Minas Gerais, e vieram para o Paraná, desbravar a nova propriedade de 520 alqueires, que recebeu o nome de Fazenda Nossa Senhora da Conceição, em homenagem à esposa. A fazenda que tinha sido adquirida por volta de 1925, nas proximidades da localidade, que na época era identificada como Espírito Santo do Pinhal, foi dividida entre os herdeiros e ajudou a formar o bairro da Jacutinga e a compor o município de Ribeirão do Pinhal.

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| Foto: Priscila Dutra - Especial para a FOLHA

Junto com a família, o patriarca trouxe uma bandeira de Santo Reis e em 1939 para cumprir uma promessa que pedia aos Reis Magos sucesso e prosperidade na nova terra fundou a companhia que deu início as festividades.

A Folia de Reis da Jacutinga, como é conhecida, começou pequena, formada apenas por membros da família, mas atualmente é conhecida em todo Norte Pioneiro e também em outras localidades por influência dos participantes. Amado Dutra garante que o que mantém a tradição viva é a união da família. “Mesmo que os parentes tenham se dispersado e seguido rumos diferentes, nos dias da festa sempre dão um jeito de estar aqui para participar”, ressaltou.

A dona de casa Aparecida Dutra Figueiredo representa essa dedicação à Festa de Reis. Participante praticamente desde que nasceu, Aparecida se orgulha de trabalhar voluntariamente na cozinha há cerca de 50 anos. “Amo a Festa de Reis de todo coração e sempre participei. A ajuda na cozinha começou quando percebi que minhas tias precisavam de contribuição para o trabalho que é bem cansativo”. Aparecida considera importante a valorização do trabalho dos voluntários e a constante renovação. “A Festa de Reis sempre precisa de pessoas dispostas a se dedicar a fazer um bom trabalho e estamos de braços abertos para receber todos, principalmente os jovens, para continuar essa devoção”, contou.

INCENTIVO AO TURISMO

Para contribuir com essa tradição, em 2019 a Festa de Reis de Ribeirão do Pinhal foi incluída no Calendário Oficial de Eventos Turísticos do Estado do Paraná, com a Lei 19.826, de 22 de março de 2019, sancionada pelo governador Ratinho Junior. A ação visa potencializar as atrações e eventos dos municípios e fomentar o turismo no Paraná.