Foi uma situação que nunca poderia ter acontecido, diz PM
"Foi terrível, principalmente, porque somos preparados e treinados para dominar o espaço e controlar a situação de tensão e não perder o controle", relata um policial militar que atua na corporação há mais de 20 anos. O PM preferiu não ter a identidade divulgada. Ele não atuou na operação realizada no Centro Cívico no dia 29 de abril do ano passado, mas, meses antes, esteve em um dos confrontos ocorridos na Assembleia Legislativa. No início de fevereiro, os professores ocuparam o plenário da Casa. Dias depois, os deputados se reuniram no restaurante da AL para discutir o projeto. "Ficamos à disposição do comando para fazer a contenção de uma provável invasão dos professores. A ordem era só impedir a entrada. Colocaram a gente em linha, dentro do pátio, bloqueando a entrada da Assembleia Legislativa. Foram momentos de muita espera. Minha equipe foi no início da manhã e fomos rendidos à noite. A equipe da noite, que chegou às 19 horas, ficou até o final da manhã do outro dia quando, depois de muita insistência e com a ajuda das associações, conseguimos a liberação deles porque já não havia condições de trabalho", lembra.
Policiais de todos os batalhões participaram da ação. Segundo ele, não houve planejamento em relação a alimentação dos policiais durante a jornada de trabalho. "Os professores vinham trazer água, lanche, maçã, chocolate... Eu mesmo almocei e lanchei no dia anterior com o meu dinheiro", relata.
Vários momentos de tensão ocorreram ao longo do dia. Um deles foi o mais marcante para o policial. "Em uma das vezes, os professores falaram que iriam invadir, mas, quando chegaram em frente ao cordão de isolamento, sentaram no chão e ficaram num protesto silencioso. Eu engoli seco. Vi alunos e professores sentados na minha frente, me olhando. Aí eu me perguntei: meu Deus, o que estou fazendo aqui? Foi um momento de reflexão intensa em relação ao objetivo de eu ter entrado nessa instituição", conta.
Conforme o PM, os professores conseguiram entrar durante a tarde. Os policiais do cordão de isolamento tentaram conter a multidão, mas não foi possível. O Pelotão de Choque lançou bombas de efeito moral e atirou com balas de borracha. Por fim, a sessão realizada no restaurante foi cancelada.
O policial e muitos outros que participaram da ação em fevereiro não foram convocados para a operação do dia 29 de abril. Integrantes de batalhões do interior do Estado e de grupos táticos foram chamados. "Não estávamos ali contra nenhum inimigo. Alguns policiais têm professores na família ou são casados ou têm filhos que são professores. Minha esposa é professora, minha irmã é professora, minha cunhada é professora... No dia 29, quando vi as cenas na TV, fiquei absolutamente chocado. Minha cunhada estava lá e não atendia o telefone. Depois atendeu chorando, dizendo que estava em uma guerra", conta.
Segundo ele, após o episódio, a corporação sentiu a rejeição da população nas ruas. "Fiquei com um sentimento de fraqueza porque, por mais que a gente esteja preparado para o combate, é um preparo contra o bandido e não contra professores. A gente começa a rever a questão de valores. Será que vale a pena fazer tudo isso pelo Estado? Temos, na escola de formação, a exaltação de um trabalho de honra, de força, de nobreza, sempre em nome de uma lei, de um estado democrático, mas essa lei e esse estado democrático falharam. [
] Foi uma situação que nunca poderia ter acontecido", argumenta o policial, que garante que nunca pensou em desistir da carreira.(V.C.)





