Londrina - Apesar da redução do número de ocorrências, o coordenador nacional da Pastoral da Terra, Dirceu Fumagalli, aponta que o Paraná é historicamente um estado com conflitos intensos no campo.
''Sempre surgem muitas informações de trabalho escravo, despejos... É um estado muito conflituoso. Historicamente, está entre os seis estados com mais problemas. São Paulo é o estado com o modelo de agronegócio mais consolidado, e o Paraná é o segundo, o que gera muitos conflitos'', descreve.
No distrito de Lerroville, em Londrina, foi criado no ano passado o assentamento Eli Vive, onde atualmente estão estabelecidas cerca de 540 famílias. O nome é uma homenagem ao sem-terra Eli Dallemole, que, em março de 2008, foi assassinado a tiros na própria casa, no assentamento Liberdade Camponesa, em Ortigueira (Região Central).
A Polícia Civil apurou que Dallemole foi vítima de vingança: o autor do crime havia sido expulso do assentamento porque o MST descobriu que ele trabalhava para um proprietário rural que disputava com os sem-terra a posse da área. O suspeito aliciaria famílias para que deixassem o local.
No Eli Vive, moram alguns sem-terra que residiam no Liberdade Camponesa na época em que Dallemole foi assassinado. Também estão estabelecidos ali alguns trabalhadores que estavam na fazenda experimental de uma multinacional, em Santa Tereza do Oeste, na região de Cascavel, quando o líder sem-terra Valmir Mota de Oliveira, o Keno, foi morto a tiros em uma tentativa de despejo, há quatro anos. Na ocasião, um segurança, Fábio Ferreira, também morreu. O Eli Vive está cheio de cartazes, faixas e pinturas em homenagem a Dallemole e Keno.
''Vieram uns 100 homens armados, todos de preto, mascarados. Foi tiro para todo lado. Parecia uma panela de pipoca'', lembra a agricultora Josefa Pereira José, que viu Keno ser assassinado.
Outro morador do Eli Vive, Zenildo Alves de Assis, conhecido como Gringo no assentamento, também estava na fazenda em Santa Tereza do Oeste naquele dia. ''Minha filha (Kauani, de cinco anos), que na época tinha um ano, ficou traumatizada. Até pouco tempo atrás, ela não podia ouvir um estrondo, nem um rojão, que ficava com medo'', relata Gringo.
Josefa diz que a situação hoje é tranquila no Eli Vive, mas nem sempre foi assim. ''Não vi nada, mas o povo conta. Desde a primeira ocupação, há uns 20 anos, teve muita confusão aqui. O assentamento só saiu porque ficamos cutucando'', afirma a agricultora.
Ela acredita que a violência no campo está diminuindo no Paraná. ''Até porque, do jeito que estava, não dava mais. Sempre tinha alguém 'grande', que mandava despejar e matar. Já perdemos muitos companheiros, por brigar e reivindicar nossos direitos'', lamenta. (F.G.)

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