Fogo teria sido ateado sobre corpo do índio
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 09 de novembro de 2001
Agência Estado<br>De Brasília 
Testemunhas afirmam que índio pataxó não usava cobertor quando foi assassinado. A médica Maria Célia Martins Bispo, em depoimento ontem ao Tribunal do Júri, deu informações diversas contrariando as declarações prestadas em depoimentos pelos quatro acusados do assassinato do pataxó Galdino Jesus dos Santos, em abril de 1997. Eron Chaves de Oliveira, Antônio Novély Vilanova, Tomás de Almeida e Max Rogério Alves, réus confessos, disseram ter jogado gotas de álcool sobre um suposto cobertor da vítima.
A médica contou que Galdino chegou lúcido ao hospital, garantindo que só usava calça jeans, camisa e sandália havaiana quando foi queimado. Ela sugeriu que, pela extensão das queimaduras, foram usadas mais do que gotas de álcool para atear fogo ao índio. ''De início, pensávamos que alguém havia atirado um coquetel molotov (garrafa cheia de combustível com um pavio aceso)'', afirmou Maria Célia.
A médica contou que Galdino tinha queimaduras de 3º grau (atinge todas camadas da pele) em 85% do corpo e de 2º grau (mais superficial) em 10%. ''Quando o paciente chegou, todos da unidade sabiam que ele evoluiria para o óbito'', disse.
Cabisbaixos, os acusados mostraram inquietação durante o depoimento da médica. Na terça-feira, eles haviam dito à juíza Sandra de Santis que apenas gotejaram álcool em uma coberta que estaria sobre Galdino. O objetivo, segundo eles, seria dar um susto no índio, que dormia em uma parada de ônibus.
Maria Célia foi a primeira da lista de 23 testemunhas de defesa e de acusação a depor ao Tribunal do Júri, que só deverá encerrar o julgamento na madrugada de sábado. Outras duas testemunhas negaram que houvesse um cobertor sobre Galdino. O chaveiro Nairo Euclides Magalhães e sua amiga Tatiana Barso Barreiras, que chegaram ao local do incidente no momento em que o pataxó estava em chamas. ''Nós vimos uma tocha de fogo na parada.''
Fora do tribunal, a irmã de Galdino, Marilene Pataxó perdeu o controle ao ver fotos do cadáver de seu irmão. Ela disse que não imaginava que o irmão tivesse sofrido tanto. Depois, em protesto, ela pisoteou uma faixa de apoio aos acusados que tinha sido colocada no tribunal.


