Fogo em favela deixa 400 desabrigados em SP
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quarta-feira, 18 de agosto de 1999
Por Marisa Folgato e Natalie Antar, especial para a AE 
São Paulo, 18 (AE) - Severina Silva aguentou firme o quanto pôde. Escapou com os filhos do incêndio na favela em que mora, na Rua Alegre, na Vila Carrão, na zona leste de São Paulo, com pelo menos outras 400 pessoas. Viu o movimento dos bombeiros tentando salvar algum dos barracos "assobradados" que ocupam uma área da Prefeitura sem nenhum controle. Mas não suportou ver tudo destruído. Desabou. Saiu desmaiada, carregada. Despertou pouco depois. Não tinha comido nada e perdido quase tudo no incêndio que começou por volta das 14 horas e foi controlado em uma hora e meia pelos bombeiros.
Ela foi a única a ser socorrida. Num incêndio sem mortos ou feridos sobrou muita destruição. Segundo a Administração Regional da Mooca, pelo menos cem moradias foram atingidas pelo fogo, que se alastrou rapidamente. Todas as construções eram de madeira. No poste instalado na Rua Alegre, marcas de uma das prováveis causas do incêndio, segundo bombeiros: dezenas de fios ligados irregularmente em gambiarras de alto risco. Havia ainda muitos botijões de gás de cozinha, mas não houve explosões.
"Há vários fatores que podem ter causado o incêndio, a começar pela ocupação irregular", avaliou o tenente coronel Enio Rodrigues dos Santos. "A perícia vai identificar a causa". "Perdi tudo o que tinha TV, rádio, fogão, cama, roupas e documentos e ainda R$ 100,00 em doces que ia vender no trem", disse Marcos Rogério, de 20 anos. Ele morava sozinho no barraco e tinha um sonho, destruído com todo o resto: terminar de montar a bicicleta para vender doces pelas ruas. "Não sei o que fazer". Galpão - A área de 1,2 mil metros quadrados abrigou há pelo menos 20 anos um departamento de limpeza pública da Prefeitura, que foi desativado há vários anos. Dessa época sobraram algumas construções em um tereno. Foram construídos barracos no terreno e no grande galpão os moradores foram fazendo divisórias e "casas" com térreo e mais um andar. Só no galpão, segundo moradores, viviam pelo menos 20 famílias.
Segundo Walter Bellintani, administrador regional da Mooca, que assumiu o há quatro meses o cargo, o local não voltará a ser ocupado pelas famílias. "Queremos retomar a área e não permitir nova invasão", afirmou. Ele reconheceu que a Prefeitura não tentou remover as pessoas em sua gestão. "É um problema social sério, que ocorre em vários pontos da cidade, e não há locais suficientes para recolher as pessoas". Provisório - Hoje, os moradores iriam para um abrigo da Prefeitura no Tatuapé, provisoriamente. Muitos dos que tiveram os barracos queimados hoje na Rua Alegre chegaram para ficar ali provisoriamente também, transferidos de uma favela do Tatuapé, que pegou fogo. "Nunca mais falaram em mudar a gente daqui", afirmou Paulina Alves, de 68 anos. Ela só não correu no meio do fogo para tentar salvar alguns papéis pelo menos porque o filho Arzemiro Teixeira, deficiente mental, impediu.


