Luta inglóriaEnquanto bombeiros tentam combater o incêndio, políticos brigam para tirar proveito da tragédiaAs chamas que já atingiram quase 20% de Roraima alimentam uma disputa eleitoral, entre o governador Neudo Campos (PPB) e o senador Romero Juca (PFL), que trocam acusações sobre as responsabilidades no incêndio e brigam pelo controle da ajuda humanitária que se seguirá à catástrofe. ‘‘Se algum grupo político controlar a distribuição da ajuda humanitária pode ganhar a eleição’’, constata, preocupado, um dos integrantes da força-tarefa criada pelo governo federal para lidar com o incêndio.
Campos e Juca brigam, desde o mês passado, pelos dividendos políticos resultantes do fogo. Campos, candidato a reeleição, pediu que o governo federal anistiasse os agricultores atingidos pelo incêndio. Juca, marido da ex-prefeita de Boa Vista, Teresa Juca, candidata do PSDB ao governo, fez o mesmo.
Na reunião de quinta-feira da Câmara de Relações Exteriores e Defesa Nacional, no Palácio do Planalto, para discutir as ofertas de ajuda internacional e a ação contra o incêndio no Estado, a disputa foi citada pelo ministro da Secretaria de Política Regional, Fernando Catão, que viu de perto o fogo e a troca de farpas dos caciques políticos locais.
Quando esteve no Estado, em março, Catão recebeu de Neudo Campos pedido de anistia para as dívidas dos agricultores com o Programa de Crédito para a Reforma Agrária (Procera) e o Banco do Brasil. Já em Brasília, soube que Juca também havia solicitado ao governo federal a mesma coisa.
Até agora, o governo não deu resposta a nenhum dos dois, até porque são de partidos aliados ao presidente Fernando Henrique Cardoso. Juca chegou a ser cotado para substituir Gustavo Krause no Ministério do Meio Ambiente. Mas o anúncio da anistia, que chegou a motivar uma reportagem de jornal com a cópia de uma suposta medida provisória sobre o assunto, levantou suspeita entre os técnicos envolvidos no combate ao incêndio. O general Luiz Edmundo Carvalho, chefe da operação, chegou a receber fotos de pessoas pondo fogo na mata. Aparecem muitos focos em locais onde não havia, confirma um oficial do Exército. Não é improvável que tenha havido fogo recente de gente querendo anistia.
‘‘Estamos tratando de um pacote emergencial para minimizar o sofrimento da população atingida pela seca e pelos incêndios, disse Juca ao jornal Folha de Boa Vista, a que é ligado. Fernando Catao desmente informações de Juca, rebateu, em manchete, o jornal Brasil Norte, aliado do governador. Campos acusa Juca de interferir junto ao governo federal para que os recursos não chegassem ao Estado quando era necessário. ‘‘O senador dizia lá em Brasília que o problema não era tão sério assim’’, afirmou o governador.
O jornal defensor de Juca acusou o governo de distribuir cestas básicas e ração para gado na região ao Apiau - onde o fogo foi mais intenso - mediante a apresentação, pelos agricultores, do título de eleitor. ‘‘Só porque o Neudo é candidato a reeleição, todo mundo fala que estamos fazendo política’’, defende a primeira-dama do Estado, Suely Campos. Mas no dia em que houve a distribuição, deputados estaduais, ligados ao governo estavam presentes e em plena campanha eleitoral.
Mesmo que as chuvas cheguem e apaguem o incêndio, a disputa pelos dividendos eleitorais do fogo continuará. Ministros que participaram da reunião de quinta-feira já avaliam, em conversas reservadas, a situação pré-eleitoral em Roraima, um dos motivos que podem estar retardando a chegada de recursos federais no Estado. O governador Neudo Campos pediu R$ 12 milhões para a construção de açudes, pocos artesianos e represas, mas foram liberados apenas R$ 500 mil, usados pelo Exército para deslocar tropas e em manutenção de equipamentos.

mockup