Fogo alimenta disputa no Estado
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sábado, 28 de março de 1998
Edson Luiz Enviado especial 
Luta inglóriaEnquanto bombeiros tentam combater o incêndio, políticos brigam para tirar proveito da tragédiaAs chamas que já atingiram quase 20% de Roraima alimentam uma disputa eleitoral, entre o governador Neudo Campos (PPB) e o senador Romero Juca (PFL), que trocam acusações sobre as responsabilidades no incêndio e brigam pelo controle da ajuda humanitária que se seguirá à catástrofe. Se algum grupo político controlar a distribuição da ajuda humanitária pode ganhar a eleição, constata, preocupado, um dos integrantes da força-tarefa criada pelo governo federal para lidar com o incêndio.
Campos e Juca brigam, desde o mês passado, pelos dividendos políticos resultantes do fogo. Campos, candidato a reeleição, pediu que o governo federal anistiasse os agricultores atingidos pelo incêndio. Juca, marido da ex-prefeita de Boa Vista, Teresa Juca, candidata do PSDB ao governo, fez o mesmo.
Na reunião de quinta-feira da Câmara de Relações Exteriores e Defesa Nacional, no Palácio do Planalto, para discutir as ofertas de ajuda internacional e a ação contra o incêndio no Estado, a disputa foi citada pelo ministro da Secretaria de Política Regional, Fernando Catão, que viu de perto o fogo e a troca de farpas dos caciques políticos locais.
Quando esteve no Estado, em março, Catão recebeu de Neudo Campos pedido de anistia para as dívidas dos agricultores com o Programa de Crédito para a Reforma Agrária (Procera) e o Banco do Brasil. Já em Brasília, soube que Juca também havia solicitado ao governo federal a mesma coisa.
Até agora, o governo não deu resposta a nenhum dos dois, até porque são de partidos aliados ao presidente Fernando Henrique Cardoso. Juca chegou a ser cotado para substituir Gustavo Krause no Ministério do Meio Ambiente. Mas o anúncio da anistia, que chegou a motivar uma reportagem de jornal com a cópia de uma suposta medida provisória sobre o assunto, levantou suspeita entre os técnicos envolvidos no combate ao incêndio. O general Luiz Edmundo Carvalho, chefe da operação, chegou a receber fotos de pessoas pondo fogo na mata. Aparecem muitos focos em locais onde não havia, confirma um oficial do Exército. Não é improvável que tenha havido fogo recente de gente querendo anistia.
Estamos tratando de um pacote emergencial para minimizar o sofrimento da população atingida pela seca e pelos incêndios, disse Juca ao jornal Folha de Boa Vista, a que é ligado. Fernando Catao desmente informações de Juca, rebateu, em manchete, o jornal Brasil Norte, aliado do governador. Campos acusa Juca de interferir junto ao governo federal para que os recursos não chegassem ao Estado quando era necessário. O senador dizia lá em Brasília que o problema não era tão sério assim, afirmou o governador.
O jornal defensor de Juca acusou o governo de distribuir cestas básicas e ração para gado na região ao Apiau - onde o fogo foi mais intenso - mediante a apresentação, pelos agricultores, do título de eleitor. Só porque o Neudo é candidato a reeleição, todo mundo fala que estamos fazendo política, defende a primeira-dama do Estado, Suely Campos. Mas no dia em que houve a distribuição, deputados estaduais, ligados ao governo estavam presentes e em plena campanha eleitoral.
Mesmo que as chuvas cheguem e apaguem o incêndio, a disputa pelos dividendos eleitorais do fogo continuará. Ministros que participaram da reunião de quinta-feira já avaliam, em conversas reservadas, a situação pré-eleitoral em Roraima, um dos motivos que podem estar retardando a chegada de recursos federais no Estado. O governador Neudo Campos pediu R$ 12 milhões para a construção de açudes, pocos artesianos e represas, mas foram liberados apenas R$ 500 mil, usados pelo Exército para deslocar tropas e em manutenção de equipamentos.


