FMI pode ter mudado discurso, mas programas são os mesmos, diz Camdessus
Washington, 30 (AE) - Dois dias depois de ter feito um apelo aos governos, para que ouçam "os gritos dos pobres", o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Michel Camdessus, explicou: a instituição financeira pode ter adaptado seu discurso, para colocar maior ênfase às questões sociais. Mas seus programas de ajuste fiscal continuam os mesmos. Na prática, nada mudará.
"Somente os jornalistas amadores acharam isso", disse Camdessus, em tom de brincadeira, referindo-se às expectativas no Brasil de que um FMI mais humano será mais tolerante na hora de examinar as contas de um país.
Seu vice, Stanley Fischer, também foi mais incisivo. "Não vamos mudar nossa política macroeconômica e de controle de inflação, que é o alicerce da estabilidade econômica", disse.
E se o ajuste fiscal tiver um alto custo social - como um aumento dramático do desemprego ou cortes em programas de educação e saúde?
"Não vamos dizer que 40% de inflação anual está bem", respondeu Fischer.
O FMI continua achando que a estabilidade econômica ainda é a melhor forma de combater a pobreza. E não vê razão para rever o acordo acertado com o Brasil, em dezembro do ano passado. Até porque o pacote de ajuda econômica de US$ 41,5 bilhões, negociado com o Fundo em dezembro passado, inclui uma parcela de US$ 4,5 bilhões do Banco Mundial (Bird), especificamente destinanda ao financiamento de programas sociais.
"O programa brasileiro já tem essa dimensão social - não temos motivo para revê-lo", disse Fischer. "O Brasil já gasta muito em saúde e educação."
Como o ministro da Fazenda, Pedro Malan, Fischer acha que a discussão muitas vezes passa por melhorar a forma de gastar e não necessariamente aumentar o volume de recursos disponíveis.
Os debates no Brasil, sobre uma possível mudança na política do FMI, não passam de uma "polêmica política", disse Fischer, que acompanha pela imprensa os acontecimentos no País.
Se o FMI mais "humano", que emergiu da crise financeira asiática, é o mesmo Fundo de sempre, o que mudou? Tanto Camdessus, como o presidente do Bird, James Wolfensohn, fizeram questão de destacar - durante a última semana - a importância da sua nova estratégia para combater a pobreza.
Hoje, Wolfensohn explicou que não quis "elevar expectativas"
mas que um dos êxitos da 54ª reunião anual do FMI e do Bird - que terminou hoje - foi ter levantado a importância das questões sociais. Na reunião passada, em plena crise, a ênfase foi o problema financeiro.
Coube a Fischer explicar o significado dessa nova parceria. O FMI e o Bird acabam de anunciar um novo programa de combate à pobreza que inclui, não apenas o perdão da dívida dos 36 países mais carentes, como também a concessão de empréstimos a juros baixos. Mas na hora de definir um programa, o FMI não atuará sozinho.
"O FMI, o Banco Mundial, os doadores, os governos (dos países que receberão ajuda) e a sociedade civil sentarão juntos para definir um programa em conjunto", explicou Fischer. Ou seja, um programa que leve em consideração tanto o ajuste como seus efeitos sociais.
Se houver um consenso de que é melhor para o país criar um seguro desemprego, este ítem será apenas mencionado no programa do FMI, sem qualquer detalhamento.
Essa primeira experiência de atuação conjunta será implementada nos programas com os mais pobres. Mas, segundo Fischer, será estendida aos demais países "na medida em que formos avançando e aprendendo as lições".
Basicamente, a nova estratégia levará as instituições internacionais a agirem como um conselho de médicos, reunidos para diagnosticar todos os problemas de um doente. Até agora, o FMI e o Bird atuavam como se fossem dois especialistas, examinando de forma separada um mesmo paciente.
Isso não quer dizer, no entanto, que o FMI passará a cuidar de problemas sociais, além dos financeiros. O que está em discussão é que papel terá o Fundo, se tiver que enfrentar uma crise e outras instituições (como o Bird) não tiverem tempo suficiente para estudar todas as consequências sociais de um programa de emergência.
Deveria o FMI sair na frente e abordar os problemas sociais? "É difícil atuar numa crise" disse Fischer. Se por um lado o Fundo tem experiência para "apagar incêndios", não tem funcionários nem experiência para lidar com questões como desemprego, saúde e educação.





