FMI e Bird abrem reunião anual em clima mais favorável Do correspondente Paulo Sotero
Washington, 23 (AE) - Um ano depois de terem se reunido na capital americana sob o signo das crises financeiras da ásia, da Rússia e de um possível colapso da economia brasileira, os ministros das Finanças e os presidentes dos bancos centrais dos 182 países membros do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial (Bird) voltam a encontrar-se em Washington, a partir de sábado, num ambiente francamente mais favorável. A continuação da extraordinária expansão da economia dos Estados Unidos, que está prestes a bater um recorde de longevidade, os sinais de retomada do Japão no primeiro semestre, depois de quase uma década de estagnação, e o crescimento mais vigoroso na Europa são reforçados pelas tendências positivas em três dos quatros países emergentes da ásia atingidos pela crise, no Brasil, onde uma contração projetada de até 4% do PIB não se materializou, e até na Rússia, que, segundo o FMI, está acima das expectativas na execução de seu programa econômico, apesar da impressão em contrário criada pelas alegações de corrupção contra o governo.
Ainda assim, o diretor-gerente do FMI, Michel Camdessus, deixou claro hoje que ainda é cedo para se cantar vitória. "Nossa mensagem é que não é hora de complacência", disse ele. "É hora de seguir adiante com as reformas estruturais em quase todas as economias do mundo, particularmente naquelas que tiveram sucesso inicial depois de (executar) programas que nós (o FMI) apoiamos". O chefe do FMI sublinhou esse ponto especialmente no caso do Brasil.
Há outros indícios de fragilidade da recuperação. Na quarta-feira, o Fundo reviu para cima sua previsão de crescimento da economia mundial, feita há apenas seis meses, e projeta agora uma expansão de 3% este ano e 3,5%. Entre as nações industrializadas, a revisão mais acentuada foi a do PIB do Japão, que deverá crescer 1% este ano depois de ter encolhido 2,8% em 1998.
Mas Camdessus ressalvou hoje que a retomada do crescimento poderia ser comprometida pela valorização do iene em relação ao dólar e ao euro, que foi desencadeada pela divulgação das estatísticas econômicas favoráveis. No entanto, o chefe do Fundo afastou a possibilidade de as autoridades financeiras do Grupo dos Sete apoiarem uma intervenção coordenada no mercado de câmbio, durante a reunião que terão sábado, lembrando que esse tipo de ação deve ser tomada apenas "em último caso".
Economistas tem chamado atenção também para o efeito potencialmente perverso do outro lado da valorização da moeda japonesa, ou seja, a desvalorização do dólar num quadro de explosão dos déficits comerciais e do balanço de pagamentos dos EUA. Isso, segundo eles, cria pressão para um aumento da taxa de juros pelo Fed, com implicações negativas para a economia americana e dos países emergentes que precisam de capitais externos para financiar seu déficit de balanço de pagamentos.
Esse tema é a preocupação central do novo secretário do Tesouro, Lawrence Summers, que fará sua estréia como líder da equipe econômica do executivo americano na reunião anual do FMI e do Banco Mundial. Nos últimos dias, Summers reiterou que continuará a política de defesa de um dólar, seguida por seu antecessor, Robert E. Rubin. Economistas têm afirmado, no entanto, que o secretário do Tesouro tem poderes limitados para fazê-lo diante de déficits externos crescentes.
Um outro indício das incertezas que cercam a atual recuperação está nas divergências entre o Banco Mundial e o FMI, as duas organizações incumbidas de administrar a crise, sobre as estratégias seguidas na ásia e na Rússia e as lições que devem ser serem tiradas dessas experiências. Os economistas-chefes das duas organizações, Joseph Stiglitz e Michael Mussa, deixaram as diferenças claras ontem, durante um seminário em Washington.
Dois outros temas principais deverão ocupar as autoridades econômicas.
Um, segundo Camdessus, "é o aprofundamento, a expansão e a aceleração" do processo de perdão da dívida dos países mais pobres. Ele anunciou que o Fundo já tem pronto um método para o uso, nessa iniciativa, do dinheiro da venda de 10% de suas reservas em ouro, já autorizada pelos países membros. O outro tópico, mais controvertido, é sobre as maneiras de envolver os bancos e outros credores privados em operações de salvamento financeiro de países, para evitar que o setor público pague a conta.
Sobre isso, Camdessus negou hoje que o FMI esteja encorajando o governo do Equador a não honrar os compromissos de sua dívida externa, mas quer que o país encontre, com os bancos credores, "uma solução amigável e abrangente" para seu problema financeiro.





