Buenos Aires, 05 (AE) - Uma missão técnica do Fundo Monetário Internacional (FMI) chegou nesta segunda-feira (05) à Argentina para fazer a revisão trimestral das contas públicas e pedir mais cortes nos gastos governamentais.
A missão vai revisar o acordo fechado em dezembro, cujas metas já foram amplamente ultrapassadas em razão da crise econômica. O novo pacto deve ser anunciado esta semana, após a conclusão do trabalho dos técnicos.
O ministro da Economia, Roque Fernández, vai pedir clemência para este ano. Sua desculpa será a crise internacional, particularmente, a brasileira, que teria alterado as projeções feitas no fim do ano passado. Espera-se condescendência com a Argentina, que nos últimos anos foi citada pelo Fundo como exemplo mundial de bom comportamento.
Em Buenos Aires, comenta-se que o FMI não estaria interessado em desaprovar a Argentina, pois teme que isso cause mais turbulência na América Latina, que passa por momento de restauração da tranquilidade. Como demonstração de que a Argentina está disposta a cumprir as metas do Fundo, o Ministério da Economia prepara novo corte no orçamento, de cerca de US$ 1,5 bilhão.
Entre os vários pontos do acordo a revisar está o crescimento do PIB, que não será de 4,8%, como estava estipulado no Orçamento de 1999, nem de 3%, como havia sido previsto pelo ministério após o início da crise brasileira.
Segundo o governo argentino, o PIB deve recuar 1,5%, mas o ministério está otimista com a possibilidade de a recessão terminar na segunda metade do ano.
O FMI também aceitaria aumentar o limite do déficit fiscal para este ano, de US$ 2,95 bilhões para US$ 3,45 bilhões, mas no próprio ministério existem previsões mais pessimistas, que calculam que o déficit chegaria a US$ 6 bilhões. A meta do primeiro trimestre, de déficit de US$ 1,3 bilhão, foi cumprida à custa da venda das ações que o Estado ainda tinha da empresa petrolífera YPF.
O ministério, em vez de contabilizar essa entrada como resultado de privatizações, a incluiu como "entradas não-tributárias". Falta saber se o FMI aceitará essa "maquiagem contábil".
Entre o pacote de medidas que o FMI traz para a Argentina estaria o aumento dos impostos sobre o diesel e a redução dos encargos sociais. Essas medidas foram propostas pelo Fundo no ano passado. No entanto, existe resistência no governo argentino a novos aumentos de impostos, já que isso implicaria reprogramação de todas as atividades e os projetos em andamento. Isso também complicaria a situação do setor agrário, que passa por um ano difícil por causa de inundações e queda de preços. O setor deve amargar perdas de pelo menos US$ 600 milhões
Problema - O problema argentino decorre da queda nas vendas e forte retração na atividade industrial. Diferentemente dos feriados prolongados do ano passado, por exemplo, quando Buenos Aires recebeu grande contingente de turistas brasileiros, chilenos e uruguaios, desta vez o turismo no país parece estar entrando em uma fase difícil. A desvalorização do real fez dobrar os custos do turista brasileiro na Argentina. Uma corrida de taxi, por exemplo, antes quase de graça, tornou-se um peso no orçamento do turista.
Os argentinos acreditam que a situação no Brasil vai estabilizar-se aos poucos e, com isso, o fluxo de capitais para a região poderá voltar. Mesmo assim, a Argentina terá de conviver com uma situação na qual o seu pricipal sócio do Mercosul, o Brasil, conta com preços 25% mais baratos do que antes.
Recente pesquisa realizada pela União Industrial Argentina (UIA), publicada pelo jornal Clarín, mostra que apenas 3% dos empresários de 33 setores não foram afetados pela crise. Os setores de alimentos e de cimento estão entre eles. Os restantes 97%, segundo a pesquisa, apresentam resulstados vermelhos.
O setor siderúrgico, por exemplo, acusou uma queda de 30% na atividade industrial nos primeiro bimestre do ano. Jás as duas maiores indústrias do setor tabagista estão sendo afetadas pelo contrabando, que estaria tirando pelo menos 10% do mercado.
Outra preocupação do setor privado argentino é a falta de crédito. Para 34% dos consultados, a falta de recursos ou as altas taxas de juros estão entre as suas principais preocuapações. Outros 28% atiraram contra a alfândega argentina e a Secretaria (ministério) de Indústria e Comércio, acusados de não terem eficiência para controlar a entrada de produtos importados.

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