São Paulo, 14 (AE) - O Fundo Monetário Internacional (FMI) deverá ser ``muito flexível' caso seja necessária uma revisão do acordo firmado com o Brasil. Se optar por uma postura ``rígida e burocrática', o FMI estaria indo contra o País. ``O Fundo está no mesmo barco do Brasil', avaliou o economista Eduardo Gianetti da Fonseca, da Universidade de São Paulo, explicando que o FMI ``não pode ser dar ao luxo de um mais abalo', já que outros países assistidos pela instituição, nos últimos anos, não resistiram à crise.
Logo após ser firmado o entendimento entre o Fundo e o Brasil, no último mês de novembro, Gianetti lembra que o jornal americano ``Wall Street Journal' comparou o acordo a um ``beijo da morte'. Até hoje o governo não tinha uma projeção dos efeitos que a mudança na política cambial trarão no desempenho da economia. Mas os termos do memorando técnico de entendimento assinado tem como pressuposto que o valor do real frente ao dólar seria de R$ 1,295 em dezembro deste ano, o que não acontecerá mais.
Apesar desse provável empenho do FMI em ajudar o País, conforme já foi indicado ontem com a divulgação de uma nota de apoio às mudanças, Gianetti acredita que o aval do Fundo não tranquiliza o mercado, como acontecia no passado. ``O mercado está operando com uma lógica mais fria de análise, de risco, de perda', ponderou o economista, dizendo que nem mesmo o apoio do governo americano ao Brasil teria esse efeito de dar calma ao processo decisório.
Pontos cruciais - Passadas 24 horas do anúncio das mudanças na política cambial, Gianetti acredita que a proposta não está ``absolutamente perdida'. Se o governo será capaz ou não de sustentar a alteração, ainda é cedo para responder, de acordo com ele, mas três aspectos são ``cruciais' para que isso aconteça: o desempenho do fluxo cambial; a desvalorização dos títulos públicos e privados e o ritmo de votação do ajuste fiscal no Congresso. Assim, a votação de quatro medidas provisórias, ontem à noite, trouxe um alívio.
``Se o governo for forçado a outra mudança no câmbio, por não sustentar a atual, ocorrerá um estrago irreparável na credibilidade do País', afirmou Gianetti. Nesse caso, a crise seria retroalimentada pelo desempenho fracassado.
A forma como foi feita a mudança de ontem, de acordo com o economista, já contribuiu para ``reduzir' a credibilidade do País, já que a substituição do presidente do Banco Central, Gustavo Franco, veio após o anúncio da nova equipe ministerial. ``Foi feita sob pressão, num momento em que a crise de confiança é aguda', afirmou o economista da USP.
Ao contrário dos ``excessos' cometidos na política monetária, especialmente nos juros, Gianetti da Fonseca acha que o governo foi ``tímido' ao flexibilizar a política cambial. ``A banda deveria ter sido ampliada', disse. Teria sido mais adequada uma desvalorização entre 20% a 25% que reduziria a incerteza do novo mecanismo de flutuação.
Diferenças com México - Se tivesse reduzido essa incerteza quanto aos próximos passos da política cambial, o Brasil poderia evitar a saída do capital especulativo. Segundo ele, a expectativa do fim de 1998 era de que, após a redução das saídas, haveria o restabelecimento do fluxo cambial ao longo desse primeiro trimestre. ``Antes mesmo das mudanças, o fluxo não tinha sido normalizado e as saídas estão superando o previsível, dados os compromissos assumidos', afirmou.
Apesar de algumas semelhanças, o Brasil tem trunfos que o México não tinha quando desvalorizou sua moeda e foi forçado pelo mercado a fazer mais correções. O País tem reservas internacionais maiores e o acordo com o FMI e outros organismos multilaterais. A nova política poderá forçar, segundo Gianetti, o aumento dos juros, trazendo um custo fiscal e político enorme, já que a ``fadiga recessiva é enorme' e a situação das finanças públicas é muito ruim.
Gianetti da Fonseca não vê a nova política cambial como um estímulo às exportações brasileiras. ``A curto prazo, é difícil acreditar que facilite', disse, já que a desvalorização é pequena e as linhas de financiamento serão limitadas devido às incertezas do mercado. Se a nova política cambial funcionar, poderá ser um estímulo às exportações.

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