New Orleans, 27 (AE) - Em sua primeira entrevista à imprensa depois de eleito o novo diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), concedida com exclusividade ao Grupo Estado
o alemão Horst Koehler defende uma transparência maior na instituição. Ele anuncia que está aberto a todas as propostas de reforma do Fundo, desde que sejam sérias. Koehler explicou que decidiu escolher um jornal brasileiro para sua primeira entrevista depois da eleição para o cargo para mostrar que leva o mundo em desenvolvimento realmente a sério. Agência Estado - Em 1998, quando assumiu a presidência do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento, o sr. citou, entre os motivos que o levaram a aceitar o cargo, o fato de ter visto músicos russos mendigando nas ruas de cidades européias. Algum sentimento parecido em relação ao mundo em desenvolvimento influenciou sua decisão de aceitar agora o desafio de dirigir o Fundo Monetário Internacional? Horst Koehler - Sim, tenho esse mesmo sentimento a respeito da extrema desigualdade quando olho não apenas para a Europa do Leste e a Rússia, mas também para os países desenvolvidos e alguns países emergentes. A meu ver, a longo prazo não há nenhuma perspectiva de um bom futuro nos países ricos se não houver também uma boa perspectiva para os países pobres. Esse é meu pensamento básico. AE - O sr. assumirá a direção do FMI no momento em que a organização está sob pesadas críticas, da direita e da esquerda. O sr. acha que essas críticas são justificadas? Koehler - Eu não creio que a argumentação por trás dessas críticas seja correta. Primeiro, porque acho que o desempenho geral do Fundo é bom, ou ao menos não tão ruim como apresentado (pelos críticos), como está provado pela notável recuperação na Rússia, na ásia e no Brasil. Segundo, essas críticas não são corretas porque existe no Fundo uma diretoria-executiva, um comitê interino, governadores e eles estão plenamente conscientes e informados sobre as políticas do FMI. Mas está claro que devemos tirar algumas conclusões de algumas experiências dos últimos dois a três anos, porque o pior seria não aprender as lições dessas experiências. E isso leva à discussão sobre as reformas do Fundo. AE - O sr. está se referindo especificamente ao relatório Meltzer ou também a outras críticas feitas ao FMI? Koehler - O relatório Meltzer é apenas uma contribuição a uma discussão que considero necessária. Há outras, algumas que chegam ao ponto de propor a abolição do FMI. Há ainda especialistas que vão numa outra direção. Um relatório pede, por exemplo, que o FMI seja mais independente e mais sujeito a prestar contas por suas decisões. Seus autores acreditam que há uma influência demasiada de agendas nacionais nas decisões e na condução do FMI. Tudo isso leva-me a presumir que este não é o momento de buscar um Deus no céu que criará um novo grande desenho para o FMI. A primeira coisa que farei é examinar todas as contribuições sérias para a discussão das reformas do Fundo. Realmente creio, pela visão que tenho hoje dessas contribuições, que será possível tirar importantes conclusões e então implementá-las. AE - Referindo-se às críticas ao FMI, o sr. afirmou, em declarações que fez depois de sua eleição, que alguns dos críticos deveriam olhar primeiro para as suas próprias casas. O que o sr. quis dizer com isso? Koehler - Eu me referia aos países ocidentais. Eu odeio a complacência na execução de políticas, particularmente no mundo ocidental, mas também nas instituições. Se olho, por exemplo, para alguns países ricos, vejo que eles estão muito atrás na agenda de reformas que deveriam executar para promover o crescimento sustentado. Antes de criticar (outras nações), os países ricos devem-se perguntar o que eles próprios estão fazendo para promover a prosperidade continuada para todas as nações. AE - Em que direção o sr. quer levar as reformas do FMI e o quais as reformas mais urgentes? Koehler - Minha visão do FMI é que ele deve ser realmente a pedra angular de uma estratégia global de promoção do crescimento mundial e, com base nisso, da redução da pobreza. Nós vivemos falando de globalização. Mas a globalização significa que devemos atentar para o fato de que não é possível que uma parte do mundo esteja ficando cada vez mais rica e a outra esteja recebendo apenas uma pequena parte (dessa prosperidade). O papel do FMI deve ser o de promover um crescimento sustentado do qual todas as nações possam participar. Com esse objetivo, acho que o FMI deveria ser um centro de excelência para os mercados financeiros e os sistemas monetários. Devemos estar conscientes para o fato de que, seja lá o que fizermos, devemos focalizar sempre naquilo em que somos mais fortes como instituição. O Banco Mundial tem outros pontos fortes. A força do FMI deve ser a promoção do crescimento, da estabilidade macroeconômica e sua atuação, como um centro de excelência para os sistemas financeiros e monetários. Os mercados de capitais desempenham um papel crucial numa estratégia de crescimento sustentado. Eu realmente creio que a estratégia de promoção do crescimento deve ser trabalhar com os mercados de capitais e não contra eles. Mas, ao mesmo tempo, para que os mercados de capitais trabalhem para o benefício dos países em desenvolvimento devemos examinar como conseguir um desenvolvimento mais continuado nos mercados financeiros. AE - Os governos de vários países em desenvolvimento, entre eles o Brasil, aplaudem a ênfase maior que o FMI dá hoje à questão social e à preocupação com a promoção da estabilidade e do crescimento como única maneira de reduzir a pobreza. Mas afirmam
ao mesmo tempo, que o FMI não deve envolver-se diretamente no desenho de políticas sociais, porque não é uma instituição tecnicamente equipada para esse tipo de trabalho. Koehler - Em termos substantivos, eu tendo mais para essa última alternativa. Minha experiência com as economias em transição da Europa do Leste é que há um obstáculo para as reformas se, junto com uma estratégia de promoção do crescimento com estabilidade, não houver também um apoio amplo da maioria do povo dos países (aos quais essas políticas se dirigem). É preciso ter as duas coisas. E sem progresso social não haverá apoio do povo. Por essa razão, o FMI precisa estar atento para o elemento social. Mas, para responder à sua pergunta, eu realmente não creio que a força do FMI esteja particularmente no desenho de políticas sociais. Essa tarefa deve ser dada ao Banco Mundial e outras instituições. O Fundo deve concentrar-se em sua área principal de competência, que é seu papel de supervisão das economias, de promoção da estabilidade macroeconômica e do crescimento e da moldura necessária para isso. Mas, uma lição aprendida na ásia é que, ao desenhar os programas de ajustamento, o Fundo deve estar mais alerta para os aspectos sociais e, em diálogo com o Banco Mundial, incluí-los no desenho correto do ajustamento. AE - Outra questão controvertida é a demanda por maior transparência do FMI, que inclui a divulgação mais ampla de dados econômicos dos países ao mercado. Uma crítica é que o FMI, ao difundir certas informações, poderia estar diminuindo o risco inerente às atividades do mercado. Em sua primeira visita a Washington o sr. disse que o FMI deve continuar com essa política de maior abertura, mas ressalvou que a confidencialidade de certas informações deve ser preservada. Quais os dados que não devem ser divulgados? Koehler - Não há nenhuma dúvida de que uma maior abertura e uma maior transparência são as grandes tendências do início do século XXI. O FMI deve expor suas políticas, suas avaliações das economias, feitas sob o artigo quarto (que regula as visitas regulares das missões da organização a todos os países membros), e já há um programa piloto nesse sentido. Mas estamos discutindo também como envolver mais o setor privado na prevenção e resolução de crises. Minha experiência aqui no EBRD é que um investidor privado não quer ver os dados de seus negócios num país no mercado. Temos, portanto, de chegar a um entendimento de que isso não acontecerá. No momento, não posso entrar em mais detalhes porque não sei exatamente o que se está discutindo sobre isso no FMI. Mas a transparência é uma questão com a qual estou comprometido. Também tenho um compromisso com a idéia de comunicar e discutir com o público. Ao mesmo tempo, como disse em Washington, acredito muito na obrigação que as instituições têm de prestar contas do que fazem. Mas se você conversar com todo o mundo o tempo todo, o risco é que tudo será colocado em dúvida e você não poderá decidir ou agir. Não acho que isso seja certo. AE - Sobre esse tópico, o sr. disse estar aberto a um diálogo com as organizações não governamentais que criticam o FMI, mas pretende conduzir esse diálogo de uma maneira que não enfraqueça as instituições democráticas dos países membros. O sr. vê um problema de legitimidade nas ONGs? Koehler - O diálogo com o público significa que temos de divulgar o máximo possível as políticas e as decisões do FMI e as razões dessas decisões. As ONGs não são tímidas e certamente são parte desse diálogo. Mas se uma ONG tem apenas o objetivo de destruir (o FMI), temos de deixar claro que ela não é nossa parceira para um diálogo sério. Um outro problema é que, no jogo democrático e particulamente nas campanhas eleitorais, as ONGs são em parte usadas nas controvérsias, de forma que os políticos estão, eles mesmos, contribuindo para o enfraquecer e diminuir a influência de instituições feitas de pessoas democraticamente eleitas. Para mim, a diretoria executiva do FMI é o foro crucial para a discussão, abertura e decisões. Eu gostaria, por isso, que os governadores do FMI (os ministros das finanças dos países membros) dessem atenção e cobrassem da diretoria-executiva e do diretor-gerente por suas decisões e que as criticassem se acharem que as decisões não tomadas não foram corretas. Por outro lado, se a decisão foi tomada com o consentimento e o apoio dos governadores do FMI, eles devem apoiá-las e não distanciar-se delas quando são criticadas nos debates com a ongs e a sociedade civil. AE - O sr. concorda com a direção das propostas de reforma do FMI apresentadas pelo secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Lawrence Summers, no sentido de o FMI focalizar mais na tarefa de supervisão e reduzir a assistência financeira a operações de prazo mais curto em países em crise de balanço de pagamentos? Koehler - Acho que os discursos do secretário contêm declarações muito importantes e substantivas. Mas não creio que deva dizer se concordo plenamente ou se discordo de um ou outro ponto antes de assumir meu posto no FMI e, mais importante, antes de poder avaliar todo o leque de propostas de reformas. AE - O sr. apóia, por exemplo, a idéia de que os países que quiserem contar com o apoio do FMI na eventualidade de uma crise devem pré-qualificar-se para isso? Koehler - Certamente examinarei essa questão, mas não tenho ainda uma opinião formada a respeito. AE - Em comentários que fez no domingo passado sobre o processo que levou à sua sucessão, seu predecessor, Michel Camdessus, disse que não mais se justifica no mundo de hoje os EUA e a Europa sentirem-se e comportarem-se como se fossem donos do FMI. Koehler - Eu compartilho da opinião de Michel Camdessus de que os Estados Unidos e a Europa não são os "donos" do FMI. O FMI é hoje propriedade de 182 países membros. Pessoalmente, acho que o FMI é um ativo extremamente valioso nesse mundo globalizado: tem 182 países membros que são obrigados a cooperar. Mais importante ainda, eles têm direitos e obrigações baseadas nas mesmas regras. Isto posto, não é correto acusar a Europa e os EUA de quererem capturar o FMI (para seus próprios interesses), porque isso é demasiadamente simples. Por outro lado, eu acho que chegou a hora, por exemplo, de reconsiderar a distribuição de cotas no FMI de maneira a melhorar a compreensão de que o Fundo é realmente propriedade de todos os seus membros. Houve mudanças na economia, os países asiáticos aumentaram sua participação relativa na economia global e deveríamos reconsiderar as quotas para refletir essas mudanças. AE - O que mais o sr. gostaria de ver em termos de uma maior participação dos países em desenvolvimento no processo de decisões no FMI. Koehler - Na diretoria-executiva, na administração e no staff do FMI, nós temos realmente de prestar atenção às idéias, às percepções e às demandas dos países em desenvolvimento. Precisamos ser realmente sérios sobre isso. Pessoalmente, quero dar substância a esse compromisso. Assim que for possível, depois de minha mudança para Washington, em maio, espero ir aos países em desenvolvimento da América Latina, da áfrica e da ásia para lhes pedir diretamente que me dêem suas opiniões sobre o FMI. Eu quero incluir essas informações que recolher na discussão sobre as reformas do FMI. AE - Quando chegar ao Brasil, uma das críticas que provavelmente ouvirá é que, apesar da recuperação econômica que citou no início da entrevista, as políticas do FMI não promovem o crescimento, mas sim a recessão e agravam a situação social. Como responderá a essa crítica? Koehler - Eu preciso e o Fundo precisa explicar qual é a lógica por trás de sua abordagem. E talvez a conclusão é que há ainda uma falta de reformas no Brasil que impedem o País de ter um crescimento mais forte e sustentado. Não quero ser específico em relação ao Brasil, mas há a questões como a reforma do sistema bancário, corrupção e má administração de empresas e do Estado e questões relacionadas com a governabilidade. Este debate já tem 20 anos, mas o progresso alcançado até agora não foi suficiente. Esse progresso só pode ser alcançado e estruturado se ele obtiver o apoio nos próprios países. Eu tenho uma outra idéia para ajudar a tornar isso uma realidade e serei franco com você. Quando falamos na arena internacional sobre globalização, frequentemente concentramos apenas nos atores globais, nos mercados de capitais, nos regimes de câmbio e na política fiscal das nações. Mas eu realmente creio que, numa abordagem mais profunda para conciliar a globalização, estabilidade e aceitação dessa direção pelo povo, nós temos de dar às pessoas uma percepção mais clara do que elas precisam fazer em seu ambiente local para ajudar a si próprios. Portanto, não devemos falar apenas das coisas globais, mas também sobre os contrapesos, nos níveis local e regional, das políticas das instituições globais. Isso é muito importante, porque as pessoas não apoiarão a globalização se elas não sentirem que têm chances ou meios de ajudar a si mesmas e beneficiar-se da globalização. Pode parecer uma contradição. Mas temos de contrabalançar a globalização com um conceito político que leve também ao fortalecimento das atividades, dos instrumentos e da participação das pessoas nas decisões de seus interesse nos níveis municipal e regional. AE - Sua vida profissional foi toda voltada para a Europa. Qual é a sua visão da América Latina? Koehler - A América Latina é um imenso continente com milhões de pessoas com aspirações comuns para o futuro. Mas, na minha visão
a América Latina tem um problema específico de desigualdade na distribuição de riqueza, de propriedade, etc. Não quero ser injusto, mas, em geral, sei que a América Latina enfrenta também o problema da corrupção e de instituições democráticas que não são realmente estáveis. Ao mesmo tempo, eu vejo que a América Latina tem feito progresso tanto no desenvolvimento de suas democracias quanto de suas economias de mercado. Mas, no final, é preciso haver um forte elemento do que chamamos na Alemanha de dimensão social, de modo que as pessoas sintam que o mercado e a democracia não são apenas para benefício de uma minoria, mas trazem bons resultados para a ampla maioria da população. E isso ainda precisa acontecer na América Latina. AE - Há hoje na América Latina uma discussão sobre a dolarização das economias na região ou, alternativamente, a criação de uma moeda regional. Qual é sua opinião? Koehler - Você está levantando um tema sensível. Inicialmente, eu olharia para essa questão apenas como um tecnocrata. Uma das lições das crises dos últimos anos é que os países devem ser mais cuidadosos com os regimes cambiais e que devem escolher entre um sistema totalmente fixo ou um sistema de livre flutuação. A dolarização seria uma maneira de adotar um sistema fixo, completamente vinculado ao dólar. Mas, olhando a questão com uma visão que vai além da bom conselho técnico, eu acredito que, quando se pensa em vincular a moeda de um Estado independente e soberano à de um outro Estado independente e soberano, é preciso considerar mais do que as tecnicalidades dos regimes de câmbio. É preciso considerar a psicologia, ou seja, como essa decisão é vista pelo povo, como ela contribuirá para a auto-confiança do povo. É preciso perguntar se a decisão é parte de uma visão de longo prazo voltada para a construção de um futuro melhor ou é mais uma medida de curto ou médio prazo tomada para contornar a dificuldade de construir as instituições e estruturas necessárias para se ter uma moeda estável. Eu não quero chegar a uma conclusão sobre qual é o melhor caminho. Mas diria que uma decisão de vincular uma moeda ao dólar precisa ser pesada de forma muito cuidadosa e incluir considerações que vão muito além de questões monetárias. AE - O sr. tem fama de ter um estilo pessoal de atuação muito franco e direto e isso tem suscitado especulações sobre como atuará no comando do FMI. Como o sr. se descreveria? Koehler - Eu sou uma pessoa normal. Não sou arrogante. Mas eu estabeleço objetivos para mim mesmo e para a instituição que dirijo. Sou ambicioso nos meus objetivos e odeio a complacência. Se sinto que há necessidade de mudança, tento mudar. Em qualquer lugar, mas especialmente numa instituição que prega aos outros que eles devem fazer reformas estruturais, é preciso estar aberto às mudanças. Às vezes, você muda uma coisa nessas instituições e é uma gritaria. Não entendo por quê. Meu forte não é ser uma pessoa particularmente paciente. A impaciência é um pouco minha fraqueza. Mas se as pessoas são justas, elas sabem que estou sempre atuando e insistindo para que se avance nas questões de substância e não para insultá-las ou nada de parecido com isso. AE - Pessoas na sua posição costumam falar primeiro com os grandes órgãos da imprensa financeiras internacional. Alguma razão especial o levou a escolher um jornal brasileiro para dar a primeira entrevista depois de sua eleição a diretor-gerente do FMI? Koehler - Queria sinalizar ao mundo em desenvolvimento o quanto eu o levo realmente a sério.

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