Dearfield, EUA (AE) - O comandante Trinchi agarrou o microfone, olhou para uma centena de sua tropa de 16 mil homens e fez um juramento. "Não somos tão velhos, nem vamos morrer amanhã", disse em voz alta e pausada. "Vamos viver para votar em Al Gore para presidente e ver seu Partido Democrata continuar no poder nos Estados Unidos."
Os homens e as mulheres, que encheram o auditório para ouvir o comandante Trinchi, aplaudiram lentamente, mas com entusiasmo. Depois, saíram devagarinho - alguns em cadeiras de rodas, outros amparados por amigos. Todos prometeram sobreviver por pelo menos mais oito meses, até as eleições presidenciais de novembro, quando mais uma vez mostrarão a sua força.
Baixinho e forte, de cabelos brancos, Amadeo Trinchitella (Trinchi, para os amigos) parece mais um chefe da máfia italiana do que um comandante militar. Ele diz que tem dificuldades para andar e gosta de falar da família: três filhos, três netos, cinco bisnetos e Joan Geller, sua noiva há sete anos e meio.
Mas ninguém subestima o poder de Trinchi. Aos 82 anos, esse filho de imigrantes italianos e ex-sindicalista de Nova York, manda em Century Village. A sua fortaleza, com 253 edifícios, identificados por letras do alfabeto e rodeados por verdes gramados, parece uma superquadra de Brasília e fica à beira da praia em Dearfield - um município próximo de Miami, no sul da Flórida.
Century Village é apenas um dos muitos condomínios, construídos para aposentados de todos os Estados Unidos, que preferem passar a velhice no clima ameno da Flórida.
"Por terem vivido a grande depressão dos anos 20 e sobrevivido à 2ª Guerra, os moradores desses condomínios dão importância ao voto", explica o cientista político Jim Kane. "E, por terem mais tempo livre do que os jovens, comparecem em massa às urnas", acrescentou.
A disciplina e a motivação desses aposentados, que seguem um líder e votam em bloco, fez com que fossem batizados de "condo-comandos", ou comandos de condomínio. E seu chefe costuma ser o "comandante".
Em Century Village vivem 16 mil aposentados, que compraram seus apartamentos por até US$ 32 mil. "Para morar aqui é preciso ter mais de 55 anos, mas a idade média é 75", explica Trinchi, administrador do condomínio.
"Todos gostam daqui, porque é bom e barato: temos sol, de graça, o ano inteiro e, por US$ 160 ao mês, cada morador tem direito a 14 piscinas, quadras de tênis, TV a cabo e um sistema de transporte interno, sem ter de se preocupar com limpeza, manutenção e segurança", acrescenta.
Trinchi também promove espetáculos: foi dono de uma casa noturna em Nova York e sabe negociar com artistas, conseguindo shows particulares por um bom preço. Mas sua "verdadeira missão" é organizar o eleitorado de Century Village e convencê-lo a votar pelo Partido Democrata. "No dia da eleição, nos encarregamos de levar os vizinhos às urnas, alugando ônibus para buscá-los em casa, se for necessário", conta.
Os políticos não subestimam o poder de liderança de Trinchi. Em seu escritório, ele tem uma foto abraçado com a noiva e outras com o presidente Bill Clinton, sua mulher Hillary, e o vice-presidente Gore, candidato à sucessão. O próprio Clinton visitou Century Village três vezes, para pedir a benção de Trinchi e seus votos.
Não foi à toa. Em 1996, Trinchi assegurou 95,5% dos 16 mil votos de Century Village para a reeleição de Clinton. "Até hoje estou investigando para saber onde foram parar os 4,5% dos votos restantes", brinca o comandante.
Recentemente, Gore também planejou uma visita, mas seus assessores cometeram um erro imperdoável: foram a outro condomínio (existem quatro com o mesmo nome na Flórida). Quando perceberam que estavam no lugar errado, telefonaram para Trinchi. "Disseram que viriam me buscar para levar-me até Gore, mas eu recusei", conta Trinchi. À noite, o vice-presidente telefonou para saber o que tinha acontecido. "Eu disse a ele que estava doente..., doente de ver os assessores dele fazerem tanta besteira."
Numa noite de março, Trinchi organizou uma sessão de treinamento político: convidou oradores da prefeitura, para debater questões locais, e o deputado democrata Robert Wexler (da Flórida) - parlamentar que ganhou destaque durante o processo de impeachment de Clinton.
O primeiro orador, de menos de 30 anos, tentou explicar suas intenções rapidamente. Foi interrompido mais de uma vez. "Fale mais alto", disse um dos comandos. "Fale mais devagar", disse outro. Um vizinho reclamou: "Por que vocês não compram novos aparelhos de audição?"
Trinchi impôs silêncio à platéia. "Deixem o jovem falar do jeito dele", gritou. "Muitos de nós temos de aguentar as roupas que vocês vestem. Não sejam tão exigentes", pediu.
Wexler - a estrela do dia - conquistou a simpatia de todos ao contar sua carreira política. Antes de postular sua candidatura, fez questão de pedir apoio ao comandante de Century Village.
Segundo Kane, os votos dos condo-comandos não são influenciados pela política da Flórida, cujo governador, Jeb Bush, é irmão do governador do Texas e candidato do Partido Republicano às eleições presidenciais, George W. Bush.
Os republicanos pregam um governo melhor, com menos impostos. Mas, pela idade e suas origens (classe trabalhadora dos Estados do nordeste americano), os moradores de Century Village estão mais preocupados em garantir e melhorar o sistema de Previdência Social, como querem os democratas.

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