Flexibilização argentina não resolve impasse no setor automobilístico
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terça-feira, 07 de dezembro de 1999
por Vladimir Goitia enviado especial 
Montevidéu, 7 (AE) - A flexibilização argentina na postura rígida que vinha adotando até ontem (6) para defender a sua indústria automobilística não foi suficiente para destravar o impasse entre os governos brasileiro e argentino sobre o futuro regime comum automotivo que deverá reger a partir de janeiro do próximo ano no Mercosul. As delegações dos quatro países decidiram ontem (6) continuar a discutir hoje antes de apresentar um pré-acordo ao Conselho do Mercado Comum (CMC), do qual fazem parte os ministros de Economia e de Relações Exteriores.
O embaixador José Botafogo Gonçalves, secretário geral da Câmara de Comércio Exterior (Camex), confirmou que a Argentina apresentou à última hora uma proposta mais flexível, mas disse haver ainda muitos pontos pendentes que precisam ser acertados. "Houve progressos em alguns aspectos, mas a visão conjunta é determinante para chegar a um acordo", explicou o embaixador, ao deixar a reunião ontem à noite na sede do Mercosul na capital uruguaia.
Botafogo Gonçalves afirmou que o objetivo da negociação com os argentinos é encontrar uma base que permita caminhar em direção a um regime de livre comércio para o setor. "Precisamos consolidar a indústria automotiva do Mercosul e não apenas a do Brasil ou da Argentina", disse. Por isso, acrescentou o embaixador, não estamos em condições de fazer um balanço do conjunto do que foi discutido. "Vamos a ver se amanhã (hoje) chegamos a um acordo geral com base ao single undertaking (nada está acertado, em quanto tudo não estiver acertado)." O embaixador foi enfático, entretanto, ao afirmar que os regimes especiais do setor automobilístico, atualmente em vigor no Brasil e na Argentina, terão de acabar no dia 31 deste mês.
Indagado sobre um possível fracasso a poucos dias do fim desses regimes, já que as negociações se estendem há cinco anos, Botafogo Gonçalves, disse que as delegações não estavam trabalhando com essa hipótese e muito menos contemplando a não realização de um acordo. "Não vamos parar de dicutir, ou vocês teriam alguma outra sugestão?", respondeu o embaixador.
A idéia é que, dos encontros de ontem e de hoje, saia algum pré-acordo para ser apresentado aos ministros na 17a Reunião do Conselho do Mercado Comum. De acordo com fontes da delegação uruguaia, o objetivo geral é, primeiro, que o Brasil e a Argentina se entendam, e, depois, saia um regime de transição para os dois países e um outro particular para ao Paraguai e o Uruguai. "Tudo depende de que o nó entre brasileiros e argentinos se desate", disse a fonte uruguaia.
Balanço- Os ministros dos quatro países devem também fazer um balanço do comércio regional este ano, período em que as economias do Brasil e da Argentina acabaram sendo significativamente afetadas pelas crises asiática e russa. "Este ano, será o primeiro a apresentar resultados negativos no intercâmbio comercial desde que o bloco foi criado", lamentou o embaixador José Alfredo Graça Lima, subsecretário geral da Assuntos Econômicos, de Integração e de Comércio Exterior, do Itamaraty.
De acordo com ele, o comércio entre o Brasil Argentina, Paraguai e Uruguai caiu este ano cerca de 30%, em comparação a 1998, quando chegou a quase US$ 22 bilhões. Em 1991, quando o Mercosul foi criado com a assinatura do Tratado de Assunção, o comércio não passava de US$ 3 bilhões. Graça Lima explicou que, além do regime automotriz comum, o CMC vai ainda revisar alguns aspectos que permitam avanços em direção da institucionalização do Mercosul. "Ainda há espaços a serem aperfeiçoados, entre eles os aspectos relacionados à solução de controvérsias", disse Graça Lima.
Outro ponto lembrado pelo embaixador, e que tem sido objeto de forte pressão do atual governo argentino, e do futuro, é a necessidade de caminhar em direção à coordenação das políticas macroeconômicas na região. "Acredito que isso vai permitir avanços, também, na institucionalização do Mercosul", disse Graça Lima, que esteve participando da reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Seattle (EUA), na semana passada.
Amanhã (8), esses temas também farão parte da reunião de cúpula do Mercosul, que contará ainda com a participação dos presidentes eleitos da Argentina, Fernando de la Rúa, e do Uruguai, Jorge Batlle. À tarde, o presidente Fernando Henrique Cardoso vai receber Batlle na Embaixada do Brasil em Montevidéu, em uma visita oficial bilateral.


