Fita liga contrabando a tráfico de pele
Lúcio Flávio Moura
De Foz do Iguaçu
Especial para a Folha
Uma fita de vídeo com imagens de caçadores extraindo a pele de uma onça-pintada pode comprovar o envolvimento de contrabandistas do Extremo-Oeste com a comercialização de pele de animais silvestres abatidos no Parque Nacional do Iguaçu.
A pele e a fita - que mostra homens com perícia de caçadores escalpelando o felino e depois exibindo a pele em triunfo - foram encontradas durante o estouro de um depósito de mercadorias contrabandeadas, que ficava ao lado de um posto de controle da Receita Federal, na BR-277, no município de Medianeira (60 quilômetros ao nordeste de Foz do Iguaçu).
O flagrante - uma operação que reuniu 20 agentes da Polícia Federal - aconteceu na noite de sexta-feira e resultou na prisão da comerciante Maria de Lourdes Locks Boito, 49 anos, e seu filho, Fabiano Boito, 22, que estão detidos em uma cela da Delegacia da PF, em Foz.
Fabiano aparece nas imagens da fita ajudando três funcionários da fazenda da família (localizada à margem do parque no município de Céu Azul, no oeste) a retirar a pele da onça, de dois metros de comprimento.
Seu pai, Nilton Boito, que não foi preso no flagrante de sexta, também aparece na fita. Ele e os funcionários de sua fazenda que aparecem no vídeo estão sendo indiciados e os quatro devem ter prisão temporária decretada em três dias.
O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) suspeita que o grupo pode estar envolvido no abate de nove onças pintadas que desde o inicio do ano desapareceram no interior ou nas imediações da reserva. Eles serão multados em R$ 4,9 mil por crime de caça em unidade de conservação.
No final da tarde de ontem, Júlio Gonchorosky, diretor do parque, e Marlene Costa de Souza Carvalho, chefe de fiscalização do escritório do Ibama em Foz do Iguaçu, deveriam assistir a fita na delegacia da PF.
Os ambientalistas querem a ajuda da PF para escavar a propriedade que aparece na fita. Há suspeitas que a fazenda possa abrigar ossadas de outros felinos abatidos dentro do parque.
AssaltosA Policia Federal está investigando os Boito desde o início do ano. Eles são acusados de usar a lanchonete que possuem na comunidade rural de Bom Jesus, à margem da BR-277, em Medianeira, como fachada para depósito de contrabando.
No local, foram encontrados grande quantidade de cheques pré-datados, R$ 15 mil em equipamentos eletrônicos e de informática sem nota fiscal e guia de importação, R$ 120 mil em dinheiro (incluindo pequena quantidade de cédulas falsas), seis armas e farta munição.
Eles receberiam gratificações em dinheiro de grupos de excursões oriundas de Ciudad del Este (Paraguai) que eram orientados pela família sobre qual o melhor momento de bular a fiscalização da barreira.
O depósito clandestino também era alugado pelos sacoleiros para armazenar lotes maiores de contrabando. Aos poucos, as mercadorias eram desovadas, enganando os fiscais da RF.
Segundo o delegado da PF, Alexandre Morato Crenitte, que investiga o caso, a grande quantidade de munições no depósito pode ser um indício de que a família estaria envolvida nos constantes assaltos sofridos pelos ônibus de sacoleiros que aguardam em filas a fiscalização da Receita no Posto Bom Jesus.
Em julho, Maria de Lourdes foi presa por contrabando, mas aguardava o julgamento em liberdade, por não ter sido detida em flagrante.





