Fita de sem-terra é montagem, diz secretário de Segurança do PR
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terça-feira, 22 de junho de 1999
Por Evandro Fadel 
Curitiba, 23 (AE) - O secretário de Segurança Pública do Paraná, Cândido Martins de Oliveira, afirmou hoje que a fita exibida ontem ( 22) pelo "Jornal Nacional", da Rede Globo, "foi inteligentemente arquitetada e montada" pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), "para distorcer a verdade e tentar induzir a opinião pública". Na fita, são apresentados alguns treinamentos e imagens de ações policiais em três fazendas desocupadas no noroeste do Estado.
Um dos coordenadores do MST no Paraná, Rogério Mauro, confirmou que a entidade recebeu várias fitas. "Não veio de uma única fonte, mas é gente de dentro da polícia", disse. De posse das fitas, o movimento fez uma edição única com cerca de 1 hora e meia. "Foram aproveitadas quase todas as imagens", afirmou. O MST pretende encaminhá-la ao Ministério Público que já investiga denúncias de abusos nas desocupações.
No início da fita são apresentadas imagens de um treinamento, em que os soldados são obrigados a passar por tubos de esgoto e têm as cabeças afundadas em águas lamacentas. Segundo o secretário, esse treinamento foi extinto "há quatro ou cinco anos". De acordo com ele, era uma prática do instrutor da Academia do Guatupê, que aparece na fita. Ele morreu há cerca de dois anos, quando tentava impedir um assalto no Banco do Estado do Paraná.
O secretário afirmou que simulações de possibilidades reais de confronto, como uma em que policiais estão vestidos de sem-terra e insultam os companheiros, são feitas normalmente. "Nosso efetivo é treinado da maneira mais realista possível para evitar o confronto." Segundo ele, nos relatos feitos pelos policiais não há informação sobre violência nas desocupações.
As imagens das ações policiais nas fazendas Florão, Cobrinco e Arapongas mostram que os acampamentos foram invadidos pelos policiais durante a madrugada, visando imobilizar os sem-terra. De acordo com o secretário, essa ação mostra a "cautela para que, na leitura da ordem judicial, não haja resistência". O horário de início da operação depende, segundo ele, de várias situações, entre elas número de acampados, local e armamento existente.
"A polícia entra, congela a área de acampamento, imobiliza se houver resistência e, por cautela, aguarda o clarear do dia para que o oficial de Justiça promova a reintegração de posse", disse o secretário.
Oliveira entende que a reintegração poderia até ser feita de madrugada sem contrariar o artigo 172 do Código de Processo Civil, pois haveria continuidade. O código diz que a ação judicial que tiver início num dia terá sequência ininterrupta até que haja seu término.
MST - O coordenador do MST Rogério Mauro concorda que ninguém foi retirado de madrugada, mas acusou os policiais de manterem pessoas deitadas no chão e algemadas "por três ou quatro horas". Oliveira argumentou que isso é feito com os que resistem. "Quando há resistência, a técnica policial determina que a pessoa seja colocada numa situação de imobilidade." Na fita ouvem-se vários estampidos semelhantes a tiros. O secretário disse que, se realmente houve tiros, uma investigação deve apurar, porque as ordens são de que as armas devem ser evitadas. Um trabalho de investigação também vai apurar como as fitas chegaram às mãos do MST.


