Fishlow defende regulação das áreas privatizadas
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segunda-feira, 03 de abril de 2000
Por Paula Puliti 
São Paulo, 4 (AE) -A continuidade do processo de privatização no Brasil depende das vendas no setor de serviço. Essa é a avaliação do influente Albert Fishlow, professor das universidades de Califórnia e Yale (EUA). Embora países como Chile, Argentina e Colômbia tenham chegado ao fim do processo de vendas das estatais, o Brasil ainda tem muito o que fazer na área de serviços, que inclui sistema financeiro e empresas de utilidade pública.
Fishlow considera a venda do Banespa muito importante para o processo no Brasil, mas defendeu que sem a regulação de todos os setores privatizados, o País avançará pouco em termos de retorno ao consumidor, produtividade e eficiência. "A regulação foi esquecida. Só se pensou em vender para reduzir déficits e gerar superávits, mas agora, cuidar para que a legislação seja cumprida é fundamental para gerar bons resultados", afirmou ele durante apresentação a empresários na Amcham (Câmara Americana de Comércio). Ele destaca, no entanto, que um dos maiores problemas para a regulação é a falta de experiência dos países latino-americanos nas formulação de regras para permitir a fiscalização do setor privado.
Segundo Fishlow, no ano passado, foram vendidos ativos equivalentes a US$ 66,5 bilhões na América Latina, ante US$ 77 bilhões na ásia, antes um dos principais focos de investimento estrangeiro. Essa quase equiparação, segundo o professor, mostra que a região vem ganhando cada vez mais importância aos olhos do investidor estrangeiro. O desenvolvimento tecnológico tem sido o principal responsável pela liderança dos setores de telecomunicações, bancos comerciais e Rádio e TV nos processos de fusões e aquisições em todo o mundo, todos ligados ao setor de serviços.
Apesar de ser amplamente favorável às privatizações, Fishlow defendeu a adoção de medidas, por parte do governo, que gerem o aumento da poupança doméstica no Brasil. Assim, o País reduziria sua dependência do capital externo. Fishlow argumentou que o ideal para o desenvolvimento de um país como o Brasil seria a participação contínua de investimentos diretos estrangeiros a uma taxa permanente de 3% (PIB) ao ano, no lugar de um ciclo, no qual um país recebe o equivalente a cerca de 9% do PIB ao ano, mas apenas temporariamente. "A economia deve ser aberta ao capital internacional, mas não pode depender dele", disse Fishlow. Ele acredita que o Brasil, dificilmente, receberá -- neste ano -- os mesmos US$ 30 bilhões em investimentos externos que entraram no País em 1999. Ele acredita que o ingresso do capital externo, neste ano, deverá ficar em torno de US$ 25 bilhões.
Para Fishlow, o setor de varejo vai liberar a continuação dos processos de fusões e aquisições no Brasil. O professor afirmou que a recuperação econômica brasileira, se confirmada, vai elevar o consumo e os lucros das cadeias de varejo, sobretudo dos supermercados, abrindo ainda mais espaço para as consolidações no setor. Na avaliação de Fishlow, se o PIB brasileiro começar a crescer entre 5% e 6%, a demanda e o consumo vão aumentar na mesma proporção. E como o varejo ainda é dominado por um grande número de lojas, há enorme potencial para fusões e aquisições.
O professor destacou a atuação do Grupo Casino, que comprou o Pão de Açúcar por US$ 872 milhões, como um dos mais agressivos operando no Brasil. O Grupo Casino -- afirmou o professor -- vai reagir e desafiar a predominância do francês Carrefour no varejo brasileiro. O professor citou, ainda, a intenção de cadeias como o Wa ll Mart e Abold, que têm como estratégia o aumento de suas posições no País.
Fishlow destacou, também, que a liderança do Brasil no segmento da Internet e os altos investimentos em tecnologia -- entre os países da América Latina -- vão fazer com que o País dê um salto para o futuro, com aumento da produtividade e crescimento econômico. "O setor de serviços será a fonte de crescimento do País nas áreas financeira, telecomunicações e Rádio e TV, em razão dos investimentos em tecnologia de ponta".
Educação - O alto índice de analfabetismo e o pouco tempo que as crianças em idade escolar passam na escola são, na avaliação do professor, um fator de limitação ao aumento da produtividade no Brasil porque o setor de serviços precisa de pessoas que saibam mexer no computador. "A falta de investimento em educação pode impedir a expansão da tecnologia no Brasil", afirmou. Ele defendeu a integração da Internet com a TV para suprir as deficiências educacionais no País e acredita que serão encontrados meios de tornar a TV com Internet mais acessível à população, até porque a compra do computador é bastante dificultada em razão do preço.
O professor Albert Fishlow acredita que a queda recorde (-7,6%) da Nasdaq, ontem, faz parte de um processo contínuo no setor tecnológico. "Enquanto o Dow (índice Dow Jones da NYSE) continua em alta, a bolsa eletrônica já perdeu 20% desde o início do ano", disse o professor. E completou: "Se eu fosse o (Alan) Greenspan, eu diria que esse é o início da sanidade da economia norte-americana". Na avaliação do professor, hoje atuando no setor privado, a desvalorização das ações de tecnologia, é parte de um processo de racionalização que vai se estender ao longo deste ano nos Estados Unidos. Fishlow reiterou as expectativas de boa parte dos analistas, segundo as quais o processo antitrust movido contra a empresa vai resultar na divisão da Microsoft em diferentes empresas e áreas, a exemplo do que ocorreu com a AT&T há cerca de dez anos.
Cervejas - Sobre a fusão das cervejarias Brahma e Antarctica, criando a Ambev, Fishlow disse que a operação mostra que os processos de fusão e aquisição no Brasil podem acontecer sem a participação de capital estrangeiro, mas é importante que as companhias tenham uma boa visão do mercado externo para ampliar as exportações. Segundo o professor, a meta de vendas externas da Ambev é bastante ambiciosa. Ele não arriscou dizer se essas vendas conseguirão ou não ser realizadas. O prof. Fishlow está deixando a área acadêmica e, agora, é um dos principais economistas do grupo norte-americano VPB (consultoria, seguros e banco mercantil).


