Fischer diz que crise brasileira teria sido evitada se ajuste fosse aprovado Rolf Kuntz
Davos, Suíça, 31 (AE) - A crise brasileira teria sido evitada, se as medidas de ajuste fiscal tivessem sido aprovadas há três semanas, disse hoje o vice-diretor gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Stanley Fischer. O lado positivo da situação brasileira, segundo ele, é que as medidas, embora com atraso, passaram quase todas pela aprovação do Congresso. Com o esforço de ajuste e uma política monetária crível, clara e transparente, acrescentou Fischer, o governo poderá reconquistar a confiança do mercado. Isso tomará algum tempo, advertiu, e será a condição para o Banco Central (BC) baixar os juros. "A crise pode ser superada e o Brasil sairá mais forte", disse.
Fischer participou hoje de um debate sobre as dificuldades da globalização. Só à tarde o nome dele entrou no programa oficial, ao mesmo tempo em que desaparecia o do ministro da Fazenda do Brasil, Pedro Malan. Também apareceu, de improviso, o do ministro das Finanças do México, José Gurría Trevino.
Comparações têm sido evitadas em público, mas pelo menos uma semelhança entre Brasil e México foi apontada nos encontros reservados de funcionários internacionais e de autoridades de vários países. O real e o peso afundararam praticamente da mesma forma, depois de uma tentativa sem êxito de ampliar a banda de flutuação. No Brasil, essa tentativa durou pouco mais de 24 horas. No México, dois ou três dias.
O Brasil foi um dos temas das sessões fechadas de autoridades e funcionários de alto nível, mas pouco se avançou na análise do caso brasileiro, segundo um dos relatores dos encontros. "Causou certa perplexidade que as lições do caso mexicano não tenham sido assimiladas", disse o relator Howard Davies, presidente da agência reguladora do setor financeiro britânico. A discussão sobre a crise brasileira foi limitada, segundo ele, por não haver autoridades brasileiras participando do encontro e porque seria "um debate em tempo real", em cima de fatos em rápida mudança.
Reuniões de dirigentes, ou "líderes mundiais", são uma tradição em Davos, durante as sessões anuais do Fórum Econômico Mundial. Neste ano, cerca de 50 autoridades de vários países, assim como de instituições internacionais, tiveram três encontros fechados. Como de costume, o sumário dos debates foi apresentado à imprensa por dois relatores - neste ano, o britânico Howard Davies e o senador norte-americano John Derry, democrata do Estado de Massachussetts.
Apesar da crise na América Latina e dos problemas ainda sem solução na Rússia, os participantes dos encontros manifestaram sentimento de maior confiança que em 1998, segundo Derry. Houve acordo geral quanto à idéia de avançar na integração internacional. "A questão", disse, "não é como deter o processo, mas como domá-lo". Domar o processo envolve descobrir meios para lidar com a volatilidade dos mercados e com o risco de contágio, que ameaça também o países com fundamentos econômicos sólidos, lembrou Davies. Manter a expansão econômica nos Estados Unidos e na Europa, estimular o Japão a retomar o crescimento, avançar nas negociações comerciais - progredindo em temas como a agricultura, por exemplo - e reforçar os meios de supervisão do sistema financeiro foram alguns dos tópicos sobre os quais houve acordo. Mantiveram-se divergências, porém, a respeito de alguns tópicos politicamente mais difíceis, como a conveniência de controlar os fluxos de capitais.
De modo geral, os dirigentes mantiveram apoio ao Fundo Monetário. Para a administração de crises, disse Howard Davies, seria conveniente clonar Fischer. Até agora, porém, tem sido mais fácil produzir clones de ovelhas, ressalvou.
Pouco antes da entrevista de Derry e Davies, Fischer gastou alguns minutos, numa sessão aberta, respondendo a críticas dirigidas ao FMI.
Repeliu, para começar, as acusações de que o Fundo negligencia as consequências sociais dos programas de ajuste. "É um nonsense", disse, "próprio de quem não leu os programas". Nos casos da Indonésia, da Tailândia, da Coréia e da Rússia, disse, houve provisões para redes de segurança social, criação de emprego e serviços de assistência. "Seria uma ilusão imaginar que se possa, nas crises, medidas que não reduzam o PIB (Produto Interno Bruto)", afirmou. Mas também é errado, acrescentou, imaginar que o FMI não se preocupa com as consequências. "É ultrajante, é ofensivo ouvir coisas que não são verdadeiras", afirmou Fischer.
Ele defendeu também as políticas de juros recomendadas pelo FMI nas crises recentes. O conselho, disse Fischer, tem sido sempre para que os juros sejam elevados temporariamente, até a moeda em crise se estabilizar.
Houve, reconheceu, erros de avaliação. No começo, não se percebeu a extensão real da crise na µsia. O assunto foi discutido num documento divulgado há poucos meses pelo Fundo, com a análise do diagnóstico inicial e um exame dos fatos como se desenvolveram. Havia no documento um lado positivo, mas as manchetes, queixou-se Fischer, limitaram-se a afirmar: "O FMI reconhece que errou."





