São Paulo, 5 (AE) - O radioamador instalado no painel da perua anuncia que "maria bonita está fazendo presença em Itaquera". Mineiro franze a testa, coça o cavanhaque, confirma a informação e busca atalhos pelas ruas de São Miguel Paulista. Perueiro clandestino há dois anos, ele estima os possíveis prejuízos: "Se perder o dia, não faturo R$ 160,00; se minha combosa for apreendida, tenho de gastar quase R$ 4 mil para voltar a rodar." Os carros da São Paulo Transporte (SPTrans), que ganharam o apelido da cangaceira por causa de suas luzes e adesivos, podem estar em qualquer lugar.
Ele deixa os três últimos passageiros de sua primeira viagem do dia e interrompe sua rotina. Eram 8h15 de sexta-feira quando estacionou a Kombi branca ano 91 em seu ponto final. O veículo vale cerca de R$ 5 mil e o risco passa a não compensar. Nem para ele, nem para ninguém. Em poucos minutos as avenidas e ruas de Itaquera e São Miguel Paulista deixam de ter peruas. Pelos rádios, uma confusão de códigos de comunicação e gírias dos manos tenta esclarecer se a fiscalização da SPTrans está realmente rondando a zona leste.
"Tem QRU no QTH, desce ligeiro e chega chegando." Como nem eles entendem muito bem o que é dito, ou pela qualidade ruim da transmissão ou pelas várias vozes que se misturam, a mensagem é passada várias vezes. Na primeira, os fiscais estão em Itaquera. Na segunda, no Tatuapé. Na terceira, em São Miguel Paulista. Na quarta, não são mais fiscais em ronda, mas uma blitz do Comando de Policiamento de Trânsito (CPTran) para averiguar documentos e condições de veículos.
O efeito psicológico da notícia errada deixa todos com dúvida da verdade. Mineiro manda um menino checar se a fiscalização está no lugar indicado pelos colegas. "Não tem nada", responde ao voltar. Entre o alarme e a volta de Mineiro para as ruas passaram-se quase quatro horas. Tempo de duas idas até Itaquera e duas voltas até São Miguel Paulista. Mineiro faz que não se importa. "Quem tem de pagar prestação de carro se arrisca, eu não."
Dinheiro - Seu cobrador, Neves, não gosta nem um pouco disso. "Dez porcento de nada é nada." Por passageiro transportado, ele recebe dez centavos e para garantir o máximo de remuneração viaja sempre que pode espremido entre a porta e o banco, com o pescoço retorcido para baixo e a cabeça contida pelo teto. O desconforto permite que uma pessoa a mais entre na perua. Em vez de nove, dez passageiros podem viajar assim. Ao fim do mês essa diferença pode representar até R$ 41,00 para ele.
Mineiro arrecada cerca de R$ 3.120,00 por mês. Descontada a gasolina, a comissão de Neves, os R$ 52,00 pagos todos os dias ao fiscal da linha, restam R$ 1.716,00 ao fim do mês. Sem as interrupções reais ou psicológicas da fiscalização, o dia de trabalho começa às 6 horas e termina às 20 horas. Cada viagem completa demora quase uma hora e meia. Por mês são 5.408 quilômetros rodados. "A gente é tratado como bandido, mas somos trabalhadores."
Quando ouve a notícia da morte de passageiros em um acidente causado por um perueiro que fugia da fiscalização em Moema, na zona sul, Mineiro volta a preocupar-se. Em rodas de conversa com outros perueiros, nos intervalos entre uma e outra partidas, elaboram teses para explicar a tragédia com base na lembrança dos encontros com a fiscalização. "Eles perseguem a gente pelo meio da rua", diz um. "Meu carro vale menos que a multa e se eu não fugir vou fazer o que da minha vida?", argumenta outro. "Uma vez um guarda me parou apontou uma arma na minha cabeça e disse que a casa caiu para mim", recorda um terceiro, para em seguida concluir indignado: "Eu disse para ele que não caiu casa nenhuma, porque eu não sou bandido."
O telefone de Mineiro toca duas vezes num intervalo de dez minutos. Sua mulher quer saber onde está, se havia fiscalização perto de sua linha e comentar o acidente. "Tem dia que ela liga mais de dez vezes." Desempregada, ela cuida do filho do casal. Com a ex-mulher, tem outro menino. Começou a trabalhar de perueiro depois de ter uma pastelaria. "Conversava com os motoristas e resolvi comprar uma perua." O ponto que organizou tem outros 12 perueiros, uma família como define. Sua vaga ele não vende por R$ 5 mil. "Não tem mais lugar para perueiro na cidade", diz. "As linhas estão todas cheias."
Lotada e organizada, ela satisfaz os passageiros que dizem não temer pela segurança mesmo depois do acidente de ontem. "Tenho medo é da fiscalização", diz uma. "Esse negócio de perua resolveu a minha vida", afirma outro. "Nós não corremos se não tem fiscal", diz Mineiro. "Uma perua sai a cada sete minutos na nossa linha e se eu correr não dá tempo de juntar passageiros nos pontos." Algumas vezes, transporta passageiros no porta-malas da Kombi. "Ínibus anda lotado e muitas vezes passa direto pelo ponto", diz. "Andar no cargueirinho lotado fica por conta do passageiro, que sempre apóia a gente."

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