Fiocruz vai testar vacina contra leishmaniose em SP
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 01 de setembro de 1999
Por Roberta Jansen, especial para a AE 
Rio, 02 (AE) - A Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz) irá testar em São Paulo, até o final do ano, duas vacinas contra a leishmaniose visceral. Trata-se do primeiro teste de um imunizante em situação real de surto: o número de casos da doença em humanos no interior do Estado aumentou de 7 para 19 nas últimas duas semanas. Como não foi ainda suficientemente testada, a vacina não será aplicada em humanos, mas sim em cachorros - os maiores reservatórios da doença.
A decisão de testar as vacinas foi tomada no final da tarde de ontem (01) em reunião que estabeleceu uma parceria entre especialistas da Fiocruz e representantes do governo do Estado de São Paulo. Uma das vacinas vem sendo desenvolvida na própria Fiocruz e a outra na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ambas já foram testadas em animais em laboratório e mostraram-se capazes de imunizar em 100% dos casos.
"As vacinas consistem na inoculação de um antígeno que induz o animal a desenvolver uma alergia ao parasita, impedindo a contaminação", explicou o coordenador do Centro de Referência em Leishmaniose da Fiocruz, Mauro Marzochi. "A única diferença entre as duas é que, no caso da vacina da UFRJ, esse antígeno é produzido por engenharia genética". O objetivo é comparar a eficácia das vacinas em um estudo de campo.
A leishmaniose visceral é uma doença de animais (zoonose) que acomete principalmente cachorros e é transmitida para o homem por intermédio do flebótomo - um inseto que procria em meio à matéria orgânica em decomposição, como fezes e lixo. A doença se caracteriza pela infecção sistêmica de órgãos e tecidos, como o baço, fígado, e medula óssea. No caso dos seres humanos, existem tratamentos e remédios para a doença.
Como não há cura para a doença em animais, os especialistas acreditam poder quebrar seu ciclo de contágio impedindo, por intermédio da vacina, que os cães adoeçam. "Uma equipe de epidemiologistas, ainda a ser designada, determinará a quantidade de cães sadios a serem vacinados", contou Marzochi. Os municípios do interior do Estado onde a vacina será testada também não foram definidos ainda. "Será a primeira vez que poderemos testá-la em larga escala".
Na parceria firmada entre a Fiocruz e o governo de São Paulo ficou acertado também que serão testados em alguns cães infectados novos medicamentos desenvolvidos para o tratamento da doença. Até hoje, não foi descoberto nenhum remédio capaz de curar a leishmaniose em cachorros (o medicamento usado em humanos não é eficaz) e a única forma de evitar que a doença se espalhe é o sacrifício dos animais infectados. Somente em Araçatuba, onde foi registrado o maior número de leischmaniose em humanos, já foram sacrificados este ano 2.819 animais.


