Fiocruz e Butantã desenvolvem vacina contra esquistossomose
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domingo, 07 de março de 1999
Por Eliane Azevedo 
Rio, 08 (AE) - A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Instituto Butantã acabaram de desenvolver, pela primeira vez no mundo, os elementos essenciais para aplicar em seres humanos uma vacina inédita contra a esquistossomose. A molécula de proteína Sm14, que é a base da vacina e foi produzida em laboratório pela equipe da médica Miriam Tendler, da Fiocruz, recebeu a adaptação necessária para poder ser usada em pessoas e obteve a aprovação da Organização Mundial de Saúde (OMS).
A previsão dos cientistas é de que, no segundo semestre, já começarão os testes em seres humanos. "Numa primeira fase, vamos avaliar a toxicidade da vacina, utilizando voluntários saudáveis do sexo masculino", explicou Miriam. "Depois, o antígeno será aplicado em campo, nas áreas endêmicas da doença". Em janeiro, a médica esteve em Genebra, na Suíça, para acertar com a OMS a estratégia de a vacina ser testada simultaneamente no Brasil e no Egito, onde a esquistossomose também é endêmica.
Com a liberação de R$ 700 mil pelo Ministério da Ciência e Tecnologia e Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), o Instituto Butantã já vai começar a produzir uma quantidade maior da molécula modificada. A Sm14 passou por um processo de purificação para ser aceita em testes com humanos e tem de ser produzida num laboratório que tenha o certificado de GMP (good manufactaring practices), que é o caso do Butantã. "Tivemos de fazer uma subclonagem da molécula, o que acabou tornando o antígeno ainda mais eficaz", comemorou a pesquisadora que há 15 anos busca desenvolver a vacina. Vantagem - A aprovação da molécula modificada pela OMS colocou o Brasil na frente na corrida pela vacina contra a esquistossomose. Duas instituições norte-americanas também tiveram seus antígenos aprovados pela OMS, mas nenhuma delas conseguiu ainda fazer a modificação necessária para a aplicação em pessoas. Uma equipe do Instituto Louis Pasteur, da França, já está testando a vacina em seres humanos, mas de uso apenas contra um tipo de parasita, encontrado somente na áfrica.
"Estamos muito perto do que pode ser a primeira vacina parasitária do mundo", afirmou Miriam. Nos testes com animais, a Sm14 obteve índices de eficácia que variaram de 75% a 90%. "A junção de forças com o Butantã foi fundamental para que o trabalho avançasse", avaliou a médica da Fiocruz.
A esquistossomose é uma doença crônica que provoca distúrbios intestinais e hepáticos. Transmitida por um parasita, que usa como hospedeiro o caramujo, atinge a cerca de 200 milhões de pessoas no mundo - 12 milhões só no Brasil, onde é endêmica no Nordeste e Minas Gerais. Por conta das migrações internas, a doença está em franca expansão no Sul e Sudeste.
Além da esquistossomose, a molécula produzida pela equipe tem um importante uso veterinário. A Sm14 comprovou ser extremamente eficaz - quase 100% - contra a fasciolose hepática, doença que ataca rebanhos de gado bovino, caprino e ovino, especialmente em países desenvolvidos, e pode causar uma queda de 50% na produção de carne e leite. Há um ano, uma empresa australiana, CSL, especializada em produtos veterinários, fez um acordo com a Fiocruz para produzir a vacina contra fasciolose.
"O produto está sendo testado em carneiros lá na Austrália e aqui, numa parceria com a Universidade Federal de Santa Catarina", contou Miriam. Se aprovada, a vacina será explorada comercialmente pela CSL, que tem a exclusividade do produto. A Fiocruz receberá royalties.


