Carlos Eduardo Lourenço Jorge
Especial para a Folha
A única surpresa que se poderia esperar do júri oficial de longas-metragens do 27º Festival de Gramado seria dar um prêmio, qualquer que fosse, ao indefensável filme venezuelano que encerrou a mostra competitiva, ‘‘Amaneció de Golpe’’. No mais, quanto ao que foi anunciado na gélida noite de sábado, observadores não apaixonados assinam em baixo da decisão dos cinco jurados - três brasileiros, um argentino e um espanhol. E como Gramado, apesar das dificuldades, é um festival bem crescido e amadurecido, lamúrias patriotreiras já não têm mais razão e nem encontram espaço. Assim, dar o prêmio máximo ao longa de estréia do diretor português Leonel Vieira não foi nenhuma ousadia ou atrevimento. ‘‘À Sombra dos Abutres’’, que além de melhor filme teve prêmios para melhor ator (Diogo Infante) e melhor fotografia (Acácio de Almeida), é um trabalho digno, que trata de um assunto grave com muita competência e apresentou-se tranquilamente premiável.
A Espanha acabou tendo o outro grande reconhecimento do juri, durante a cerimônia de encerramento no Palácio dos Festivais, pela primeira vez na semana com lotação esgotada. O louco amor entre os jovens Ana e Otto, levado com rara engenhosidade aos limites da deliciosa loucura, deu a Julio Medem o prêmio de direção e a ‘‘Los Amantes del Circulo Polar’’ os prêmios da crítica brasileira e estrangeira para melhor filme, do júri popular como melhor longa latino, e ainda os Kikitos para melhor roteiro (Medem) e melhor música (Alberto Iglesias).
É claro que este resultado coloca mais lenha na fogueira que arde em nome da retomada de um Festival de Gramado exclusivamente brasileiro. Discussão de resto tola e sem fundamento, já que cabe ao cinema nacional andar sobre suas próprias pernas, conquistar mais espaço na seleção com quantidade e qualidade e garantir um lugar no pódio, ao lado dos congêneres latinos. Sem vitimização, sem choradeiras. Como nossos três bravos concorrentes desta 27 ª edição, que tiveram comportamento exemplar.
Um merecidíssimo Prêmio Especial do Júri foi para Eduardo Coutinho e seu documentário ‘‘Santo Forte’’, desde já referência didática - no que a palavra tem de nobre - quando o assunto for sincretismo religioso, rigoroso documento etnográfico e acurado retrato sociológico e psicológico de um segmento de povo brasileiro que busca e precisa encontrar nas religiões um lenitivo para sua condição de vida adversa.
Marcelo Masagão e o inventivo ‘‘Nós que Aqui Estamos Por vós Esperamos’’ não foram esquecidos, e o Kikito para melhor montagem acabou fazendo justiça a uma original visita aos anos 1900. E ‘‘Por Trás do Pano’’, inteligente comédia urbana de costumes dirigida por Luis Villaça, levou a estatueta de melhor filme brasileiro, segundo o júri popular, e o Kikito mais aplaudido da noite, o de melhor atriz para Denise Fraga (mulher do diretor e amamentando em Gramado o recém-nascido Pedro). O melhor curta-metragem em 35mm para o júri oficial da categoria foi ‘‘E no Meio Passa um Trem’’ , de Nando Olival e Fernando Meirelles. Para o júri da crítica, ganhou a irreverência iconoclasta de ‘‘Deus é Pai’’, animação gaúcha de apenas três minutos e meio sobre uma hipotética e hilária sessão de roupa suja lavada diante de uma psicanalista entre Deus e Jesus.
Encerrada a versão 99, Gramado já começa a pensar em 2000. O retorno às origens - seis dias de mostra, mais qualidade concentrada por metro de celulóide, presença forte de identidade latina e corte nas alegorias, adereços e festas - provou não ser apenas solução emergencial, mas engenharia financeira aconselhável: de R$ 1,8 milhão ano passado, o custo diminuiu agora para R$ 1,4 milhão. E é inegável que o 27º objetivamente superou a mostra anterior.

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