O júri do 54º Festival International du Film de Cannes, presidido pela diretora e atriz sueca Liv Ullman fez a coisa certa, pelo menos quanto a Palma para Moretti. La Stanza del Figlio devolve aos italianos o sabor da vitória no festival em Cannes – a última vez foi A Árvore dos Tamancos, de Ermanno Olmi, em 78 – e credencia o filme a uma longa carreira internacional a partir de agora.
Profundo e sensível, La Stanza del Figlio expõe a dor de uma família subitamente atingida pela fatalidade, a morte do filho adolescente. Aqui muito distanciado de suas recentes sátiras autobiográficas com nítida cor política (Caro Diário, Aprile), Nanni Moretti conta uma história intimista, simples e comovente.
O Grande Prêmio do Júri, uma espécie de segundo lugar, ficou surpreendentemente com La Pianiste, do austríaco Michael Hannecke, mas com forte perfil francês. Outra surpresa foi o prêmio de melhor ator para o francês Benoit Magimel, pelo mesmo filme. Já a melhor atriz, Isabelle Huppert, também por La Pianiste, era a grande favorita. O júri reconheceu o trabalho dela, na única decisão unânime.
Em outra decisão estranha, o prêmio de melhor direção acabou dividido entre dois americanos, David Lynch pelo relato surrealista de Mulholland Drive, e Joel Coen, este sim, com méritos pela hábil articulação do thriller noir em rigoroso preto e branco, The Man Who Wasn’t Here. Outro acerto foi o diploma de melhor roteiro, entregue ao estreante bósnio Danis Tanovic pelo vigoroso libelo pacifista No Man’s Land.
Conduzida com classe e discrição pela atriz Charlotte Rampling, a cerimônia de encerramento foi rápida e eficiente. Ao contrário do Oscar, com suas três horas e meia de duração, a premiação em Cannes dura exatos 30 minutos. É claro que a lista de premiações é bem menor (vale também para o desfile de celebridades) porque em Cannes o que se pretende reconhecer não é a performance industrial, mas exclusivamente a artística – os negócios ficam por conta do mercado do filme que corre paralelo. Tanto que a cerimônia final, a exemplo de Veneza e Berlim, é transmitida ao vivo apenas para a Europa.
Entre os convidados para a apresentação dos prêmios, Jodie Foster apareceu para compensar a recusa ao convite do Festival para presidir o júri. Visivelmetne contrariado, Nick Nolte leu um pequeno texto para apresentar Isabelle Huppert. E o casal Antonio Banderas-Melanie Griffith, ela um dos homenageados especiais este ano, anunciou a Palma de Ouro para Nanni Moretti. O Oriente, com trunfos consideráveis, só foi lembrado para o único prêmio técnico, dado Tu Duu-Chin, engenheiro de som em dois filmes de Taiwan.
E o Brasil, afinal, acabou subindo os degraus do Palais ontem à noite. A honra extra-cinema ficou restrita à beleza de Ana Paula Arósio, uma das modelos mundiais da L’Oreal de Paris, um dos patrocinadores oficiais do festival.

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