São Paulo, 14 (AE) - A cruz de Cabíria é a pureza de uma alma que veio ao mundo para extinguir-se. Sua trágica inocência é também sua condenação. Por não entender o mundo em que vive, Cabíria acaba vítima dele, perdendo tudo o que tem, da casinha miserável na periferia de Roma a seus sonhos e futuro. Obviamente, nada disso aparece nas adaptações americanas do filme de Fellini - particularmente no musical ``Charity, Meu Amor' (Sweet Charity, 1969), de Bob Fosse, seu mais assumido remake.
A prostituta de Fellini, como esclareceu o cineasta, poderia ser uma irmã de caridade ou um dom-quixote de saias lutando para resgatar a dignidade humana. Nas versões americanas, essa dimensão é reduzida à tela pequena. Não tem transcendência. Isso não tira o mérito da estréia de Bob Fosse no cinema. ``Sweet Charity', baseado na peça homônima de Neil Simon, tem boas músicas e Shirley MacLaine num de seus melhores momentos. Só que a essência do original de Fellini morreu na fonte. O centro do filme de Fosse é o desconforto material. As garotas americanas só falam em dinheiro - a canção Big Spender basta como prova dessa fixação - e o maior sonho da prostituta de Fosse é arranjar um emprego de datilógrafa (hoje seria digitadora).
Crápulas e impostores - Em ``Licença para Amar até Meia-Noite' (Cinderella Liberty, 1973), o diretor Mark Rydell pega carona em ``Noites de Cabíria', mas nem ele nem o roteirista Darryl Ponicsan assumem o modelo. Ponicsan escreveu sua novela elegendo como personagem central um marinheiro que se apaixona por uma prostituta. Tanto em ``Sweet Charity' como em ``Cinderella Liberty', os candidatos a marido são cheios de boas intenções, dispostos a ``perdoar' o passado que condena suas mulheres. No filme de Fellini, os homens são crápulas e impostores, responsáveis pela infelicidade de Cabíria. O original, como se vê, está mais próximo da realidade.
No submundo - ``Noites de Cabíria' é muito mais do que um simples filme sobre uma tola e crédula prostituta enganada pelos homens. É quase um ensaio antropológico sobre a cultura italiana, escrito com a valiosa contribuição de Pier Paolo Pasolini, consultor de Fellini para o submundo romano (que conhecia como ninguém). As marcas de Pasolini estão nos diálogos, nas locações e nos personagens insólitos, mas especialmente na misteriosa figura do homem que distribui alimentos para os sem-teto na calada da noite (sequência que agora surge na íntegra nesta cópia recuperada).
O caridoso homem de negro é um santo pasoliniano. Ele e o velho franciscano constituem as chaves do reino de Cabíria, linhas divisórias entre o muro que a prostituta erigiu contra o mundo para se proteger (sua rispidez) e a necessidade da graça redentora. Nada mais agostiniano. Nada mais pasoliniano. Da peregrinação ao santuário do Divino Amor ao mafuá do show de vaudeville, onde Cabíiria é hipnotizada, a busca de redenção é também uma tentativa de entender a série de normas que determinam as ações da prostituta, o seu comportamento.
Desejo de morte - Pasolini chamava a isso de ``cultura'. Cabíria, segundo a evolução do filme, quer antecipar sua morte, provocando seu agressor, porque está mergulhada no vazio cultural. Ignora a própria realidadade que a cerca (e tanto isso é verdade que descobre, perplexa, miseráveis morando em cavernas da periferia romana). A cultura, para Pasolini, é uma posse e requer uma energia obstinada, ou seja, o desejo de possuir. Cabíria não quer preservar nada, nem mesmo o pobre casebre que construiu, vendendo seu corpo nas ruas de Roma.
Essa foi, talvez, a maior contribuição de Pasolini para o filme de Fellini.
Na cumplicidade com o franciscano, Cabíria descobre que o milagre da redenção é uma necessidade interna dos ``palhaços de Deus'. Não por acaso, Fellini insiste na aproximação da figura de Cabíria com a de Carlitos (Pasolini aproveitaria a idéia para aproximar Totó do personagem de Chaplin em Gaviões e Passarinhos). É preciso estar desprovido de tudo para desejar possuir algo, zerar, enfim, a condição material. Cabíria deve perder tudo para mimetizar o saber espiritual.
Orgulhosa de sua casinha periférica de alvenaria, Cabíria é destruída cinicamente por um homem culto e inescrupuloso que rouba todo o seu dinheiro. É uma parábola sobre a grande tragédia italiana do pós-guerra, quando a massa de proletários foi devorada pela burguesia consumista com impiedosa fúria. Fellini mostra tudo isso recorrendo apenas à história individual da romântica prostituta. Só um gênio cheio de espírito seria capaz disso. Infelizmente, o cinema perdeu quase todos eles.
Inocentes - Em 1957, quando o filme foi feito, a Itália entrava numa era de consumo desenfreado. O falso Oscar, que promete casar com Cabíria, é o retrato do novo subproletário italiano, definido por Pasolini como um cruel criminoso sem conflito interno. Ele está acima do bem e do mal, porque não fez uma escolha entre os dois. Apenas escolheu o endurecimento, a falta de piedade, segundo Pasolini (assassinado por um desses subproletários da periferia romana, por trágica coincidência).
Cabíria traz, portanto, as marcas da visão política de Pasolini e do humanismo de Fellini. É, ao mesmo tempo, um filme sobre a supressão da liberdade fundamental (a do corpo) de Cabíria e sua ânsia de ser devorada por não mais reconhecer a sociedade em que vive. A Itália perdia, enfim, sua inocência. Depois de Cabíria, Fellini só poderia mesmo ter feito ``A Doce Vida', o grande painel sociológico de Roma.

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