‘‘Dayereh’’ (O Círculo), dirigido por Jafar Panahi, ganhou o Leão de Ouro como melhor filme da 57ª Mostra Internazionale d’Arte Cinematografica de Veneza. A cerimônia de premiação foi sábado à noite na Sala Grande, na ilha do Lido. A exemplo dos últimos anos, e ao contrário de Cannes, mais uma vez foi servida durante a festa uma melancólica receita de amadorismo. A sorte é que tudo foi muito rápido, agilidade imposta pela transmissão ao vivo. O azar é que a clientela televisiva foram milhões de europeus. Justa, a decisão do júri presidido pelo diretor Milos Forman. Mas, apesar deste e de outros acertos, um leão considerado mais nobre acabou nas mãos de uma zebra.
Ao atribuir o máximo reconhecimento ao longa metragem do Irã, Veneza reconhece a oportunidade e a necessidade de dar ampla ressonância internacional a este drama que em tudo contraria o cinema minimalista, contemplativo de Abbas Kiarostami e Moshen Makhmalbaf, cultuados mestres da geração anterior a do agora premiado Jafar Panahi.
No círculo a que se refere a história de ‘‘Dayereh’’, oito mulheres oprimidas no país dos aiatolás, oito destinos encarcerados. Fala-se de opressão política e opressão masculina, o que ali dá no mesmo; de ‘‘chador’’ e de aborto; de abandono de filhos pela impossibilidade de mantê-los e de cigarro vetado para mulheres. Apesar da recente emissão de alguns tímidos sinais de abertura e tolerância, teme-se que o regime de Teerã não conceda visto fácil para o trânsito especialmente interno de ‘‘Dayereh’’.
O Prêmio Especial do Júri, distinção sempre muito cobiçada em festivais de primeiro mundo - no Brasil o prêmio sofre da síndrome do segundo lugar e é sempre recebido como consolação - acabou entregue ao artista plástico norte-americano Julian Schnabel, pelo filme ‘‘When Night Falls’’. O barrigudo Schnabel, que recebeu o trofeu em seu uniforme habitual, isto é, longa saia estampada, camisa pólo e blazer, não é diretor e sabe disso.
A premiação se deve exclusivamente à indiscutível força da história e dos personagens, e acabou demonstrando coerência ideológica dos jurados, já que o filme, a exemplo do iraniano, vai direto na jugular do um regime totalitário para expor a intolerância e a arbitrariedade.
Pelo trabalho em ‘‘When Night Falls’’, o espanhol Javier Bardem, macho-garanhão por excelência quando atua em filmes de Bigas Lunas e Almodóvar, ficou com a Coppa Volpi de melhor ator. Ele interpreta o escritor homossexual cubano Reinaldo Arenas, que morreu de Aids em 1990 exilado em Nova York, depois de passar pelo inferno em vida, perseguido pelo governo de Fidel Castro.
Curiosamente, o júri composto por sete membros, entre os quais quatro diretores, se equivocou ao creditar a melhor direção. O indiano Buddhadeb Dasgupta com certeza construiu com ‘‘Uttara’’ uma exótica tragédia aleatória sobre o Bem o Mal nos confins de Bengala, mas daí a estar acima de um Manoel de Oliveira ou de um Raoul Ruiz pelos esquecidos ‘‘Palavra e Utopia’’ e ‘‘Fils de Deux MSres’’ é um pouco demais.
A melhor atriz foi a australiana Rose Byrne em ‘‘The Goddess of 1967’’. Com apenas 13 anos, a irlandesa Megan Burns, de ‘‘Liam’’, ficou com o Prêmio Marcello Mastroianni para melhor ator estreante. A consolação dos italianos, aliás merecida, foi ganha pelo roteiro de ‘‘I Cento Passi’’, de Marco Tullio Giordana. E o colombiano ‘‘La Virgen de Los Sicários’’, de Barbet Schroeder, levou a Medaglia d’Oro della Presidenza del Senato.
Gafes na abertura e no encerramento do festival. A inexpressiva atriz Chiara Caselli, regra três improvisada como apresentadora para substituir Valéria Bruni Tedeschi, sem timing, sem charme, sem classe, foi um desastre na condução dos trabalhos. Ela deu prosseguimento, no palco, às desastrosas entrevistas externas de um repórter da Tele Piu.
Este ano não houve blecaute e nem problemas com a tradutora. Mas, para compensar, uma série de bobagens que custa acreditar terem sido escritas como texto condutor. Alguns poucos momentos salvaram a noite de um desastre completo. Como o hilário diretor Julian Schnabel, se referindo ao ditador espanhol Franco como um ‘‘cazzo’’.

A RELAÇÃO DOS PREMIADOS

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