Filme brasileiro enfrenta frieza no festival de Cannes
O filme brasileiro Estorvo, que concorre à Palma de Ouro no 53º
Festival Internacional do Filme de Cannes, foi recebido ontem com
indiferença e boa dose de frieza pela platéia de jornalistas que assistiu ao
filme em duas sessões. Muitos abandonaram a projeção pela metade, ou nem
isso. Ao final, nenhum aplauso. Estorvo, dirigido por Ruy Guerra (foto), um dos pais do Cinema Novo, é baseado no romance homônimo de Chico Buarque de
Holanda, star le da chanson brésilienne, como a ele se refere à imprensa
francesa.
As primeiras críticas dos principais jornais que cobrem o festival devem sair nas edições de hoje. Mas é certo que o tratamento não
deverá ser simpático. O filme de fato não é bom, como já não era bom o romance de Chico.
Durante a coletiva os dois falaram sobre o processo de adaptação, do texto às imagens. Chico está satisfeito com o que viu. Ruy idem com que fez. Na avaliação do diretor, o filme se coloca contra a corrente do cinemão comercial.
Para ele, a história escrita por Chico é perfeita para os tempos atuais de globalização, que impedem projetos pessoais de vida. E para quem analisa o que está na tela, isto significa que Estorvo deve ser visto como exemplar de cinema ideológico, engajado, um filme-ensaio, experimental, de laboratório.
Quanto a isso, nada contra. Pelo contrário. O problema é que Chico &
Ruy & Estorvo ressuscitam - ou simplesmente atualizam - o velho impasse.
Saindo do circuito dos festivais, a qual público se dirige o filme? Em qual
gueto de iniciados em cinefilia? Por quanto tempo o exibidor - Espaço
Unibanco e congêneres à parte - deixará o a produção em cartaz? Neste
sentido, e em vários outros, Estorvo é anacrônico. É um autêntico
dinossauro, mesmo aqui no Festival de Cannes, volta e meia assombrado por
fósseis jurássicos.





