Em 1970, a mulher brasileira tinha em média quase seis filhos. Hoje, o número caiu para 2,4. Uma queda significativa na taxa de fecundidade, mas que não eliminou alguns problemas, como a gravidez na adolescência ''que cresceu'' e as altas disparidades regionais e de classe. Foi o prefeito Cesar Maia quem levantou a polêmica ao dizer: ''O grande problema do crescimento das favelas, a partir dos anos 80, é a taxa de fertilidade da favela, superior à da não-favela.''
A prefeitura tem um programa experimental de contracepção de emergência. É a chamada pílula do dia seguinte. A mulher vai em algum dos 110 postos ou maternidades municipais, marca consulta e ganha a pílula, que pode ser usada até cinco dias depois da relação. Mas que ninguém se acostume: ela não pode ser utilizada como método contraceptivo, pois o uso frequente faz com que o organismo se habitue e cesse o efeito. Até mês passado, apenas vítimas de violência sexual tinham acesso ao programa, mas agora qualquer mulher pode ser beneficiada. O secretário municipal de Saúde, Ronaldo Cezar Coelho, também tinha anunciado um projeto de distribuição de pílulas a adolescentes pelo correio, mas o programa foi suspenso e está sendo avaliado pela prefeitura.
O planejamento familiar faz parte dos direitos sexuais e reprodutivos, que vão estar em discussão no próximo dia 29, no Rio, no simpósio ''Saúde sexual e reprodutiva e metas de desenvolvimento do milênio: desafios e novas perspectivas no Brasil'', promovido pela ONG Bem-Estar Familiar no Brasil (Bemfam) e pela Federação Internacional de Planejamento Familiar (IPPF). No dia seguinte, a IPPF organiza uma conferência latino-americana e do Caribe sobre o mesmo tema.
Coordenadora do departamento médico da Bemfam, Monica Almeida explica que não se pode simplesmente distribuir pílula ou camisinha. A população tem que escolher o método que é melhor para ela, segundo seu estilo de vida e suas necessidades: ''É preciso oferecer métodos cientificamente aprovados, eficazes e culturalmente aceitos. A tabelinha, por exemplo, não é o mais eficaz, mas em certos grupos religiosos é o mais aceito.''
Ela explica que as taxas de fecundidade no Brasil e nos Estados Unidos não diferem tanto, mas a variedade de métodos usados, sim. ''Aqui, usam-se basicamente dois, laqueadura e pílula. Nos EUA, há uma distribuição de métodos muito maior, como injeção, DIU e vasectomia.''
Ney Costa, secretário-executivo da Bemfam, diz que é uma visão reducionista fazer uma associação direta e excludente entre planejamento familiar e pobreza. ''É um componente importante, mas não uma panacéia. O planejamento familiar, a distribuição de renda e a melhora do nível de educação formam a tríade para combater a pobreza.''
Diretora da Sociedade Brasileira de Reprodução Humana, a ginecologista e terapeuta sexual Junia Dias de Lima defende enfaticamente o planejamento familiar. A médica explica que o segundo passo depois que o casal decide quantos filhos quer ter e em que etapa da vida quer tê-los é a escolha do método contraceptivo. Embora existam alternativas anticoncepcionais masculinas, Junia reconhece que esse é um cuidado que em geral continua partindo da mulher. Que pelo menos tem tido compensações graças à tecnologia.
''A drospirenona é uma substância que atua no corpo como a progesterona, mas é diurética e antiandrogênica. A mulher não incha e sua pele fica mais bonita. Já o anel vaginal trouxe uma comodidade para as pacientes que se esqueciam de tomar a pílula. Ele é introduzido na vagina e retirado três semanas depois. Há ainda outra vantagem: a mulher passa a tocar o seu corpo e pode perceber alterações na textura do canal vaginal e o surgimento de cistos ou verrugas. É uma espécie de auto-exame.''
Mais facilidade têm as mulheres que optam por um contraceptivo de longa duração. Os novos implantes e os endoceptivos (a nova geração de dispositivos intra-uterinos) só precisam de troca a cada três ou cinco anos, dependendo do método. ''Mas, no caso do endoceptivos, há contra-indicações para mulheres que nunca engravidaram'', ressalta.
Diante de tantas opções, os especialistas recomendam uma boa conversa com o ginecologista. Foi o que fez a atriz Jéssica Sodré, a Lady Daiane da novela ''Senhora do destino''. Enquanto sua personagem integra as estatísticas de gravidez na adolescência, a jovem de 19 anos prefere usar camisinha. ''A pílula não é legal para mim, que ainda não tenho taxas de hormônio estabilizadas. Fico muito inchada e ganho peso.''
Monique Cordeiro, de 21 anos, prova que os desejos femininos são os mesmos em qualquer classe social. Há quatro anos ela integra o grupo Adolescentro do Centro de Estudos e Ações Sociais da Maré. Primeiro, foi aluna das oficinas e, agora, como monitora, multiplica o que aprendeu: ''Sempre tive medo de engravidar. Quis estudar e ter um emprego'', diz ela, que se casou na semana passada. ''Hoje tomo pílula porque prefiro. Já experimentei camisinha feminina. Depois tentei injeções mensais, mas meu fluxo menstrual aumentou muito. Tomei outros medicamentos até escolher a marca que uso hoje''.

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