Brasília, 17 (AE) - O bioquímico Tomás Emanuel Ribeiro Cruz, de 27 anos, é filho de brasileiros mas ainda não foi registrado como brasileiro e não fala português. Vive dias de angústia em Brasília, em uma cidade onde não consegue se comunicar com a maioria das pessoas que o procuram pedindo informações sobre o pai, o enfermeiro da Cruz Vermelha Geraldo Cruz Pires Ribeiro, que foi sequestrado, no último sábado, na cidade de Nalchik, na Rússia.
Tomás nasceu na Nova Zelândia e veio poucas vezes ao Brasil. Comemorou seu aniversário dia 27 de janeiro com parentes brasileiros, a maioria de Juiz de Fora, em Minas Gerais, onde sua mãe, Maria Olga Ribeiro, que vive na Austrália, está a passeio. Viajou para Brasília, para visitar o tio Sérgio Salgado Pinha Júnior, economista que trabalha no Banco Central. Tomás recebeu a notícia sobre o sequestro do pai, no sábado, e desde então não consegue dormir direito.
"Não há informações sobre o caso", disse Tomás, em inglês. Não está confirmado se Geraldo Cruz teria sido sequestrado por grupos que defendem a independência da Chechênia. "O Tomás está muito estressado", relatou Patrícia Ribeiro Salgado Pinha, prima do rapaz, que o tem confortado.
Hoje à tarde, os representantes da Cruz Vermelha telefonaram para Tomás e disseram que nenhum grupo fez contato para pedir resgate ou assumir a autoria do sequestro.
A cidade de Nalchik fica em território russo, a 150 quilômetros da fronteira da não reconhecida Chechênia. Geraldo Cruz tinha viajado para o local para proferir aula de primeiros-socorros. Ao ser sequestrado por três homens, estava na companhia de uma russa, encarregada de traduzir as aulas para o russo. A mulher foi libertada a poucos quilômetros do local do sequestro. Desde então, a Cruz Vermelha não tem notícias de Geraldo.
Tomás acredita que a Cruz Vermelha e o governo brasileiro deverão fazer mais "pressão" para ajudar a libertar seu pai. A família não imputa nenhuma espécie de responsabilidade ao governo brasileiro pelo fato de Geraldo Cruz ainda não ter sido anistiado profissionalmente. O enfermeiro trabalhava na Caixa Econômica Federal até 1971, em Belo Horizonte, quando foi exilado e consequentemente demitido por suposto abandono do emprego. Desde 1981, Geraldo vem tentando reaver seu emprego na Caixa, sem sucesso. Antes de ser sequestrado, disse à família que ia impetrar ação na Justiça para conseguir o emprego de volta e viver no Brasil.
"A gente não pode ligar o sequestro ao fato de ele não ter conseguido o emprego de volta na Caixa", disse o economista Sérgio Salgado. A família recebeu a visita do presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Reginaldo de Castro, que prometeu lutar pela libertação de Geraldo. O Ministério das Relações Exteriores informou hoje que todos os contatos com o governo russo já foram feitos, para que Geraldo seja libertado o mais rápido possível.
Segundo Sérgio Salgado, a família recebeu informação da embaixada da Rússia no Brasil de que o governo russo incumbiu um vice-ministro para acompanhar o caso de Geraldo Cruz. Mas a família ainda não recebeu nenhuma notícia de iniciativa concreta para a libertação do enfermeiro.
Em suas entrevistas, Geraldo Cruz dizia que trabalhava para a Cruz Vermelha em função da ajuda que a organização deu para que ele fosse libertado no Chile, em 1973, durante o golpe contra o governo de Salvador Allende. "Devo minha vida à Cruz Vermelha"
dizia o enfermeiro.

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