Filho de sem-teto morre em caixa d'água de prédio invadido
Agência Estado
De São Paulo
Eram 10h30 de ontem quando Alam Michel de Souza Oliveira, de 9 anos, subiu uma escada para buscar a bola de futebol com a qual brincava todos os dias. Ela tinha caído no que pareceu a Alam ser uma laje, pouco acima do pátio do prédio onde brincava com o amigo Wallace Oliveira da Silva, de 10. A laje era uma caixa-dágua. Alam pisou na tampa de madeira do reservatório, podre, e caiu de uma altura de mais ou menos 3 metros. Retirado, respirou ainda por alguns minutos, à espera do resgate, que não veio. Chegou ao Pronto-Socorro da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo já morto, levado por policiais militares, ao meio-dia.
O caso seria mais uma história do cotidiano da metrópole não fossem o cenário e os personagens envolvidos. Alam era o filho único de um casal de sem-teto: o soldador Carlos Roberto de Oliveira e a dona de casa Ivanilde Narciso de Souza Oliveira. Junto com outras 300 famílias, eles haviam invadido na noite de domingo o edifício do antigo Hotel São Paulo, na Rua São Francisco, Praça da Bandeira, em mais uma das recentes ocupações políticas promovidas por grupos de sem-teto. Assim como a tampa da caixa-dágua, quase tudo no prédio invadido pelo Fórum dos Cortiços estava podre.
O pedreiro Francisco de Oliveira estava no quarto andar quando escutou os gritos de Ivanilde. A mãe de Wallace, Geralda Paixão da Silva, disse que Ivanilde não acreditou quando o filho disse que Alam tinha caído. Depois, começou a gritar. Francisco pegou uma corda e desceu. Com o técnico em eletrônica Antônio Batista de Oliveira Filho, conseguiu tirar o menino da água. Fez respiração boca-a-boca. Alam ainda respirava. Quando passou aqui já estava morto, contou mais tarde a enfermeira Elza da Silva, no saguão do edifício. Peguei no pulso dele e já não tinha mais nada.





