Filho de Ben Barka pede reabertura de inquérito Do correspondente Reali Junior
Paris, 28 (AE) - Trinta e cinco anos depois dos fatos, o caso de Ben Barka, o principal dirigente da oposição marroquina no exílio, sequestrado no centro de Paris, diante da Drugstore Saint Germain, no dia 29 de outubro de 1965, está sendo reavaliado graças à abertura parcial dos arquivos da DGSE, o antigo serviço secreto francês.
Com isso, a Justiça francesa enviou ao Marrocos uma solicitação oficial de informações para ajudar a determinar a sorte de quatro marginais franceses, todos condenados à revelia à prisão perpétua pelo sequestro e desaparecimento do dirigente político marroquino.
Na época, os quatro - Georges Boucheseiche, Jean Palisse, Julien le Ny e Pierre Dubail - puderam deixar tranquilamente o território francês, muito provavelmente com a cumplicidade da polícia, refugiando-se no Marrocos.
Mas, a partir de 1971, as autoridades francesas e marroquinas perderam os traços dos quatro homens. Agora, a revista Paris Match está fazendo novas revelações sobre o caso, assinalando que o corpo sem cabeça de Mehdi Ben Barka foi sepultado num bosque, hoje o estacionamento da mesquita de Evry-Courcouronnes, nas imediações de Paris.
A construção dessa mesquita - uma das maiores da Europa - foi financiada quase inteiramente pelo governo do Marrocos, por decisão do rei Hassan II. O soberano, arrependido, teria determinado a construção da mesquita sobre o local onde foi sepultado seu maior adversário político.
O sequestro foi organizado com a cumplicidade de autoridades do Ministério do Interior, por um antigo ministro da Defesa do Marrocos, o general Mohammed Oufkir, que mais tarde dirigiu um complô contra o próprio Hassan II, tendo sido executado, enquanto sua família foi mantida em prisão domiciliar durante mais de 30 anos.
Sua mulher e filhos só foram libertados e puderam deixar o Marrocos nos últimos anos da década passada. Quanto à família do dirigente de oposição, seu filho, Bachir Ben Barka, vivendo hoje na Europa, está solicitando a reabertura das investigações. Ele acha plausível a versão da Paris Match e quer que seja investigada.
A nova versão sobre a morte do dirigente da União Nacional das Forças Populares (Unfp) foi obtida graças ao depoimento de Antoine Lopez, antigo chefe de escala do aeroporto de Orly, mas também informante dos serviços secretos e antigo amigo do general Oufkir.
Trata-se de um dos últimos protagonistas desse fato que ainda está vivo. Ele afirma que Ben Barka foi enterrado no bosque de La Mare de la Besace, uma zona rural perto de sua casa, onde se encontra hoje a mesquita.
Segundo a mesma versão, o corpo foi sepultado sem a cabeça, transportada para o Marrocos para ser exibida ao rei Hassan. Essa versão é confirmada por uma testemunha, Ali Bourequat, preso em 1973 no Marrocos e enviado para a prisão secreta de Tazmamart, nas portas de Rabat.
Da prisão ele pôde ver um túmulo especial conhecido por não ter nenhum corpo enterrado, só uma cabeça, a de Ben Barka. Também Ahmed Rami, antigo oficial marroquino exilado na Europa após duas tentativas de golpe de Estado, trata do assunto em sua biografia e confirma essa versão, dizendo que a cabeça de Ben Barka foi enviada a Rabat numa valise, antes de ser enterrada no interior dos muros que cercam o palácio, ao lado da Faculdade de Direito. Apesar de todos esses depoimentos, não existe, até agora, nenhuma prova material.





