São Paulo, 28 (AE) - A proposta de término do atendimento diferenciado no Hospital das Clínicas (HC) em São Paulo não garante o fim da discriminação no complexo, disse hoje o promotor Vidal Serrano Nunes Júnior, do Ministério Público. Segundo ele, há denúncias de práticas irregulares no setor de fígado e no laboratório do hospital que comprovariam discriminação. "Quero um pronunciamento formal do hospital, explicando como a proposta encaminhada impedirá essas denúncias", disse o promotor.
Desde maio, Nunes investiga o atendimento diferenciado do HC
pelo qual as pessoas associadas a planos de saúde são atendidas com mais rapidez que os pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). Após quase dois meses de negociação, os dirigentes do HC encaminharam na sexta-feira ao Ministério Público uma proposta de término da "porta dupla".
Denúncias - O inquérito do Ministério Público registra denúncias de que o setor de fígado do HC reserva três dias da semana para tratar pacientes particulares ou com convênios e apenas dois para os dependentes do SUS. "É importante lembrar que 95% do atendimento do HC é ligado ao SUS", afirmou Nunes.
Outra denúncia é a de que os laudos que avaliam biópsias de pulmão demoram dois dias para ficarem prontos no caso dos pacientes com planos de saúde, e um mês para os usuários do SUS. Há, ainda, informações de que metade dos pacientes que usam o aparelho de tomografia computadorizada do hospital é composta por particulares - que, como enfatiza o promotor, representam apenas 5% do atendimento total do HC.
Nunes está encaminhando um ofício ao HC pedindo explicações de como o término de uma porta dupla e a adoção de uma única fila de espera coibirá essas práticas.
Processo normal - O superintendente do HC, José DElia Filho, disse hoje que está aguardando o ofício do Ministério Público para apurar as denúncias. "O promotor analisou a nossa proposta e chegou à conclusão de que ela não cobre todos os aspectos levantados pelo Ministério Público", disse DElia. "Está na hora de discutir." Para ele, as questões levantadas por Nunes fazem parte de uma negociação normal. "Estamos, agora
na segunda rodada."
Ele não descarta a possibilidade de essas denúncias terem fundamento. "É impossível um superintendente saber em quatro meses tudo que acontece em um complexo desse tamanho", revelou, referindo-se à sua recente nomeação para o cargo.
DElia informou que semana passada o hospital criou uma ouvidoria para apurar denúncias. "Queremos evitar que questões como essa cheguem à promotoria", informou. Para ele, essa ouvidoria poderá encaminhar "sem filtros" todas as informações do que acontece no complexo HC. Todas as denúncias serão verificadas", garantiu.

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