Brasília, 31 (AE) - A fila de espera por um transplante de órgão pode crescer nos próximos anos. Atulamente existem 30 mil pessoas aguardando um doador. O alerta é da Associação Brasileira deTransplante de àrgãos (ABTO), que pretende investir em campanhas de conscientização, treinamentos específicos para os médicos e propor a suspensão de um item da lei de transplante que especifica nos documentos (carteira de habilitação e identidade) um carimbo, com a frase "não sou doador".
Segundo integrantes da associação, só depois dessas mudança o setor poderá ter esperança. Em 1998, a ABTO realizou uma pesquisa de março a dezembro, em 20 Estados brasileiro, pouco depois da aprovação da Lei 9434 de 1997, que regulamentou o transplante no País. O resultado não animou.
A associação analisou documentos emitidos nesse período em diversas regiões. O objetivo foi verificar quantas pessoas tiveram sua carteira de habilitação ou identidade carimbadas com a frase: "não sou doador". O registro está previsto no parágrafo 1º do artigo 4º da lei, que rege o direito das pessoas que não querem tornar-se doadoras. No caso das que pretendem doar seus órgãos, os documentos são emitidos sem o carimbo.
Segundo o presidente da associação, Henry de Holanda Campos, em muitos Estados pesquisados foram encontrados documentos previamente carimbados, sem a autorização da pessoa. "Isso é um absurdo; se continuarmos nesse ritmo não teremos doadores nos próximos anos."
Em São Paulo, de 1.118.620 documentos emitidos, no período pesquisado, 62% foram carimbados. Em Sergipe, a situação é mais preocupante. Dos 95.693 documentos exppedidos, 94% foram marcados com a frase de "não sou doador".
Para tentar reverter esse quadro, Campos pretende encaminhar uma proposta ao governo federal pedindo a suspensão do parágrafo que obriga a colocação do carimbo nos documentos de identificação para os não doadores.
"Esses documentos são feitos em locais inadequados, sem pessoas capacitadas para explicar a importância em ser um doador."
A prosposta da ABTO é que os não doadores procurem um centro especializado para dar essa informação. Segundo Campos, existem 20 centros de Notificação e captação de doação de órgãos em todos os País.
Atualmente, o Brasil tem 30 mil pessoas na fila de espera por um órgão. Só de rim, são 16 mil pacientes. "Não podemos fechar os olhos para esses pacientes", alertou.
O cirurgião Walter Pereira, especialista em transplante, aprova a proposta de suspender o carimbo. Para ele, as pessoas deveriam tomar essa decisão, depois de receber esclarecimentos sobre o assunto.
A Agência Estado não conseguiu localizar o senador Lúcio Alcântara (PSDB-CE), autor do projeto de lei. A assessoria de imprensa do senador informou que ele estava viajando.
Os obstáculos para quem precisa de um órgão no Brasil são inúmeros, garante Campos. Ele disse que a não aceitação das famílias em doar os órgãos de um parente é muito grande.
Outro problema é o despreparo dos médicos, que muitas vezes por falta de conhecimento no setor acabam perdendo o doador. "Às vezes, a pessoa tem morte encefálica e pode ser um doador, mas a demora no diagnóstico e a morosidade em outros procedimentos acabam inutizando os órgãos, os quais poderiam ser aproveitados." Nesse caso, os médicos são responsáveis por 40% da perda de doadores, segundo Campos.
Um outra pesquisa realizada pela associação, mostra como esses dois fatores refletem na falta de órgãos. Em São Paulo, por exemplo, foram registradas 1.129 mortes de virtuais doadores. Desses só 260 tiveram seus órgãos doados. "Em 90% dos casos que não aceitaram ou tiveram interferência da família ou faltou empenho médico." Para solucionar esse problema a associação vai investir em campanhas e no treinamento de pessoas, que trabalharão direto com os hospitais.
Apesar dos inúmeros problemas, os médicos não desanimam e esperam um crescimento no número de transplantes esse ano. Essa expectativa parte dos número obtidos no ano passado, quando foi constatado um aumento de 30% de cirurgias, comparado a 97.
Um bom exemplo, é que foram realizadas 109 cirurgias de coração no ano passado, contra 77, em 97. Segundo Campos, o Sistema Nacional de Transplantes (STN), criado em 1998 pelo governo federal, está ajudando a reverter o quadro negativo. Ele garante que com um trabalho de conscientização e a mudança do artigo da lei, o País pode mudar de vez essa situação.
Desde a implantação do sistema, o governo vem destinando uma verba específica para os transplantes. No ano passado, foram R$ 365 milhões. "Mais de 90% das operações são financiadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS)", argumentou.
Outra medida adotada pelo sistema foi a fila única. Nessa lista, o paciente obedece aos três princípios básicos para obter a cirurgia: tempo na fila, receber um órgão compatível e as condições atuais de saúde do paciente.
"Essa fila foi criada para atender a todos, independente do seu poder aquisitivo; aqui quem tem mais dinheiro tem que aguardar a sua hora como os outros", disse Campos.

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