Os monges beneditinos do Mosteiro da Ressurreição acordam de madrugada, às 4h10, e se recolhem às 8 da noite. Durante o dia, rezam e meditam. Nos intervalos entre as rezas, estudam e trabalham para seu sustento. Às vezes, além dos exercícios espirituais, submetem-se a penitências físicas, como o jejum.
Eles não vêem TV nem vão ao cinema. São celibatários, visitam os pais uma vez por ano e seguem à risca os votos que fizeram ao ser admitidos como monges. Um deles é o da estabilidade, pelo qual são obrigados a permanecer até a morte naquele mosteiro, na zona rural de Ponta Grossa, interior do Paraná. A rigor ficam lá até depois de mortos, pois o cemitério está ao lado da casa onde viveram, assinalado por uma cruz de madeira e um canteiro de margaridas. Essa rotina, que data do Século 6, quando São Bento criou a ordem dos beneditinos, é pesada e não parece fácil de ser seguida.
Vocação para o isolamentoSurpreendentemente, porém, há uma longa fila de pessoas, pedindo para entrar no mosteiro. Na semana passada, chegava a 236 o total de nomes catalogados no computador do irmão Marcos, o noviço responsável pelos contatos iniciais com os pretendentes.
Para um mosteiro criado há apenas 19 anos, trata-se de uma fila extraordinária. Não só pela extensão, mas principalmente porque em todos os seminários e mosteiros católicos do País vive-se um problema inverso, o da falta de vocação.
Para o irmão Marcos, que se comunica com os pretendentes por carta, pelo menos 200 têm potencial para se tornar monge. Metade deles está ligada aos grupos de oração da Renovação Carismática Católica, movimento religioso conservador que constitui o principal celeiro de vocações religiosas do País. Foi de um desses grupos que saiu o fenômeno Marcelo Rossi.
O perfil dos selecionados, porém, não é nada uniforme. Pode-se perceber isso pela história de pessoas que estão chegando ao mosteiro. Uma delas é Marcelo Valli, de 58 anos. Ele se encontra entre os monges desde setembro, para conhecer a casa e sua rotina, num período experimental de três meses.
Valli nasceu no Rio Grande do Sul, mas se mudou com a família para o Rio ainda menino. Na juventude, viajou para a Austrália, como turista, e acabou ficando lá por 20 anos. Hoje, possui dois apartamentos na Zona Sul do Rio, onde voltou a viver, e um hotel em Porto Alegre.
Para engrossar a renda, dá aulas particulares de inglês, em Copacabana. Em breve terá de desligar-se de tudo isso. Quando terminar o período de experiência, em novembro, ele voltará para o Rio com a tarefa de desfazer, em 30 dias, os vínculos com a vida comum. Se o fizer, em janeiro poderá retornar o convívio dos monges e dar início aos preparativos para se tornar um deles. Serão seis anos de estudos e duras provações.
RealizaçãoEducado em colégio de freiras, Valli quis ser seminarista na infância. Impedido pelo pai, sempre esteve ligado à Igreja Católica e não se casou. Agora, parece convencido de que encontrou o que procurava. ‘‘No dia que cheguei, soube que este era o lugar’’. Em seguida, em voz baixa, respeitosa, acrescenta: ‘‘Passei a vida inteira com a sensação de que algo me faltava, mas sem saber ao certo o que era.’’
Outro que ingressou há pouco no mosteiro é o artista plástico Lúcio Mauro Ribeiro, pontagrossense, de 28 anos. Até dois anos atrás, envolvido com trabalhos de pintura e gravura, nem sequer participava de missas. A opção pelo novo caminho veio num curso de especialização em História da Arte, quando aprofundou seus estudos em Filosofia, origens das religiões, arte sacra. - Chamaram sua atenção textos do filósofo Olavo de Carvalho sobre questões relacionadas à busca da verdade transcendental. Foi o ponto de partida para que ele descobrisse que andava insatisfeito com a vida e aprofundasse suas leituras.
Ele acabou batendo às portas do mosteiro, onde foi aceito para um período de experiência, no início do ano. Boêmio, de hábitos irregulares, Ribeiro temia não suportar 15 dias de vida monástica. Mas gostou e em julho retornou à casa dos pais, em Ponta Grossa, para se despedir. Vive no mosteiro na condição de postulante, que deve durar nove meses.
Nas horas dedicadas ao trabalho, Ribeiro pinta e faz gravuras, para os livros e folhetos editados pelos beneditinos, em prazo determinado pelos superiores, numa rotina muito diferente da que tinha no passado. ‘‘Aqui acordo na hora em que ia dormir quando vivia lá fora.’’
Valli e Ribeiro acham que foram chamados, embora não saibam explicar ao certo como ocorreu. Ninguém parece ter certeza sobre isso. O irmão Marcos, um homem bonito, de porte atlético, que não aparenta os seus 30 anos, estudava física na Universidade de São Paulo (USP) e trabalhava com técnicas de desenvolvimento de superímãs, quando trocou tudo pelo mosteiro, cinco anos atrás. Um de seus colegas de vida monástica é um ex-professor da mesma escola, que se despediu do mundo comum aos 60 anos.
DesistênciaMas nem todos os chamados permanecem lá. D. Agostinho, o prior do mosteiro, diz que ao chegar ali, em 1993, depois de desistir da carreira de administrador de empresas em Teresópolis, estava acompanhado de mais seis pessoas. Do grupo, só resta ele.
As defecções ocorrem em todas as fases da vida monástica. Mas são mais frequentes no início. Conta-se que alguns vão embora logo nos primeiros dias, ao descobrir que não conseguem viver sem televisão.
Outros não suportam as inevitáveis agruras da convivência tão intensa. Amar o próximo, quando ele está tão próximo, nem sempre é fácil. Outros, segundo Marcos, não gostam do que acabam descobrindo neles mesmos. ‘‘O encontro com Deus, que é o objetivo da nossa busca, começa com o encontro consigo mesmo’’, explica. ‘‘Certas pessoas se apavoram com sua própria fragilidade.’’
Para D. Agostinho, não fica no mosteiro quem quer ou gosta, mas os necessitados. ‘‘Esta é uma casa de conversão e só aqueles que precisam, conseguem suportá-la.’’ No geral, os resultados são positivos. Tanto que já está em planejamento a ampliação da clausura do mosteiro. Hoje, ela abriga 30 pessoas – 19 monges, 2 noviços e 9 postulantes. Em 2001, deverão ficar prontas mais cinco celas – que é o nome dado aos quartos –, ampliando a capacidade para 35. Se conseguirem doações, podem chegar a 60 vagas.

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