Três anos após ser escolhido líder da Igreja Católica, o argentino Jorge Mário Bergoglio vem mudando a percepção sobre a religião. A popularidade de Francisco pode ter alavancado um processo de crescimento do número de católicos no mundo, fenômeno que vem sendo evidenciado na última década.
Segundo dados oficiais do Vaticano, o aumento de pessoas batizadas nos últimos dez anos coloca a religião católica perto de somar um quinto da população mundial. De acordo com o Escritório Central de Estatística do Vaticano, o número de fiéis passou de 1,11 bilhão em 2005 para 1,27 bilhão ao final de 2014. Em dez anos, 157 milhões de pessoas foram batizadas. A maior expansão ocorreu na África, com um salto de 41% em dez anos. Na Ásia, a expansão foi de 20%.
Nas Américas, o crescimento também é registrado, ainda que menor. Um aumento de 11,7% entre 2005 e 2014. Segundo o Vaticano, o continente americano ainda representa 50% dos católicos do planeta.
O Brasil, de acordo com uma pesquisa do Datafolha feita em 2013, andou na contramão. Apesar dos católicos ainda serem maioria, a fatia diminuiu. Enquanto no Censo de 2010, 64,63% dos brasileiros se diziam católicos, três anos depois, pesquisa do Datafolha mostrou que esse percentual caiu para 57%.
Os evangélicos pentecostais são 19% da população, seguidos dos evangélicos não pentecostais (9%), espíritas (3%) e umbandistas (1%). Outras religiões alcançaram 2%, os sem religião somam 7% e 1% são ateus.
O coordenador do curso de Teologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC) Londrina, frei Ildo Perondi, comenta que essa redução era uma tendência normal com o avanço das denominações evangélicas. "O catolicismo veio com a cultura portuguesa. Havia uma identificação, mas não significava que esse povo que se dizia católico participasse da Igreja. Houve uma diminuição no número de batizados com o avanço das seitas evangélicas. No entanto, há uma inversão importantíssima que é preciso considerar, que é o maior engajamento dos fiéis."
Frei Ildo enfatiza que essa evasão não é exclusividade da Igreja Católica, e que outras denominações histórias também perderam fiéis com o crescimento de outras religiões. Essa migração, na visão do frei, é reflexo de uma crise. "A modernidade tornou as pessoas mais frágeis e depressivas. Isso faz com que elas busquem o sagrado. Basta alguém dizer que faz um milagre que elas vão atrás", aponta.
Para ele, a soma das crises econômica, política e social está provocando uma crise de identidade. "Antes a sociedade vivia uma era sólida. Agora estamos numa era do gasoso, do descartável." O coordenador diz que a Igreja Católica está procurando ser mais acolhedora, mais ouvinte e com um Deus misericordioso, mas sem banalizar a fé. "Às vezes, as pessoas querem ver no sagrado a solução de todos os problemas. A fé verdadeira quer mostrar que Deus está presente, ser o sustento para que ela se torne capaz de enfrentar seus problemas", afirma.
A migração para outras crenças foi uma onda grande, mas que está passando. Essa é a avaliação do arcebispo emérito de Londrina, d. Albano Cavallin. "Nota-se que há uma implosão dessas igrejas. Já encontrei pessoas que estão na terceira experiência de igreja nova", comenta. Para ele, esse movimento de ida foi reflexo de uma série de fatores, mas principalmente pelo papel firme do catolicismo em relação à moral. "Religião é coisa séria e não se pode brincar com a igreja. Não ter padres e freiras suficientes para acolher também deixou descobertos os fiéis e muita gente se aproveitou disso", aponta. Mas a Igreja Católica percebe um retorno dos fiéis, que agora buscam uma igreja histórica e com tradições firmes.

ATEÍSMO
A igreja chefiada por Francisco está mais preocupada com o avanço do ateísmo do que com a fuga de católicos. No Brasil, apenas 1% se dizem ateus, mas em outros países, principalmente na Europa, ele vem crescendo. "É um ateísmo mais consistente e não apenas aquele modismo comum entre os jovens. E com esses ateus o papa faz questão de dialogar para entender os seus motivos e criar uma ponte", comenta frei Ildo.

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