Todos os anos, desde os tempos de abraão, milhares de islâmicos seguem em peregrinação à cidade sagrada de Meca, na Arábia Saudita, cumprindo uma tradição religiosa da qual faz parte a lapidação de Satã. Muitos quilômetros distante, em Londrina, o sheik Yamani Abdunur Mohammad, acompanhado pelo presidente da Sociedade Muçulmana Samir Ali Zebian e demais diretores da entidade, explica que o Hajj, como é denominado este grande evento de concentração de fiéis, acontece sempre entre os dias 8 e 12 do 12º mês do ano lunar, que é diferente do calendário ocidental. Nesses cinco dias, são realizados vários ritos baseados na história e no Alcorão. ''A peregrinação é obrigatória para todos os que têm condições monetárias para isso'', informa o sheik.
É ele quem explica que o hábito da peregrinação vem desde a época de Abraão, quando a ''Caba'', uma casa em Meca destruída durante o dilúvio de Noé, foi reconstruída. Deus teria dito então à Abraão que convocasse as pessoas à peregrinação. Na época, o povo ainda era idólatra e cultuava a mais de um deus. ''Deus fez chegar a voz Dele em todos os cantos do mundo'', afirma Mohammad, em alusão às pessoas de todos os países que se dirigem à Meca durante o Hajj. Este ano, cerca de 2 milhões de mulçumanos participaram do acontecimento.
O sheik detalha que o primeiro dia do Hajj acontece em Mina e no dia seguinte os peregrinos seguem para o campo de Arafat, onde permanecem em oração e meditação. A partir do terceiro dia, acontece o rito de repúdia à Satanás e também o sacrifício de animais, relembrando o que aconteceu com Abraão.
Mohammad observa que Abraão foi colocado à prova por Deus em algumas situações, tendo inclusive sobrevivido a 40 dias dentro de uma fogueira após quebrar estátuas que eram adoradas pelo povo. Depois, Deus teria pedido à Abraão em sonho que sacrificasse seu filho Ismael (para os cristãos, essa passagem aconteceu com o filho Isaac, e não Ismael). Enquanto Abraão se preparava para o sacrifício de seu filho, Satanás teria aparecido três vezes à ele, que em todas elas atirou pedras em sua direção. Daí o rito repetido pelos mulçumanos nos três últimos dias do Hajj.
O ritual do sacrifício de animais tem fundamento nessa mesma passagem de Abraão. O sheik explica que quando ele estava para decaptar seu filho, um anjo enviado por Deus trocou o filho por um carneiro. Hoje, os mulçumanos repetem esse ato no Eid Al Adha (Festa do Sacrifício) e os animais sacrificados são divididos entre eles e também doados para pessoas necessitadas. Em Londrina, este ano, foram sacrificados 18 carneiros e três bois.
As notícias sobre a morte de 251 pessoas este ano, no último domingo, em Mina, durante o ritual de lapidação de satanás, deixaram descontentes membros da comunidade islâmica de Londrina. Para eles, as informações aludem para um ''fanatismo religioso'' e denigrem a imagem da doutrina, que existe desde o século VII e se baseia no Alcorão. Na verdade, as localidades onde a concentração humana acontecem é que colocam os seus participantes em risco, devido principalmente às dimensões e falta de infra-estrutura.
O incidente levou o rei Fahd a publicar imediatamente um decreto para modernizar as cidades santas. O projeto, de acordo com a agência oficial de notícias saudita SPA, deverá ser executado em 20 anos, com a participação de especialistas locais e estrangeiros.
As autoridades sauditas também colocaram em operação, no segundo dia da peregrinação, um esquema que demoninaram de ''estratégia de controle da multidão'', como forma de evitar novas tragédias.

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