Rio, 28 (AE) - O presidente de Cuba, Fidel Castro, de 72 anos
disse hoje que será um "observador" e "um franco-atirador" nas reuniões da Cimeira América Latina, Caribe e União Européia. "Cuba é o país mais independente para discutir os temas da cúpula e da globalização", afirmou. O líder cubano optou, porém
pela diplomacia ao falar da exclusão do repúdio à lei Hemls-Burton do documento final do encontro, a Declaração do Rio. A exclusão foi decidida durante a reunião dos chanceleres, no domingo.
"Que susto, por um momento pensei que os ianques haviam suprimido a lei Helms-Burton", disse, em tom de brincadeira, antes de falar sobre a posição de Cuba a respeito da decisão. "Fui aconselhado pelos meus assessores mais jovens que não vale a pena discutir esse tema em favor de princípios mais gerais de extraterritoriedade", afirmou, destacando que o Chile também passa por problemas semelhantes desde que o ex-ditador Augusto Pinochet foi preso na Inglaterra.
Em vigor desde maio de 1996, a lei Hemls-Burton permite à Justiça dos Estados Unidos punir empresas e cidadãos de outros países que fizerem investimentos industriais na ilha. Na reunião dos chanceleres, o ministro das Relações Exteriores cubano, Felipe Pérez Roque, 34 anos, mostrou-se irritado com a retirada da moção de condenação.
Fidel classificou a Cimeira como um "encontro histórico", mas não demonstrou muito otimismo quanto aos resultados práticos. "Acho que o documento (a Declaração do Rio) é o melhor que os países puderam fazer", afirmou ele, que, apesar da firmeza nas declarações, disse que será "disciplinado" e respeitará o tempo de cinco minutos que terá para falar na abertura do painel sobre fluxos de investimentos, às 10 horas de amanhã (29).
O líder cubano afirmou que não tem nada contra a globalização econômica, mas citou o papa João Paulo II para ressaltar que defende uma globalização diferente da que vem sendo implantada, segundo ele, pelos Estados Unidos. "Não aceito a globalização de um País que quer ter o mundo como propriedade", criticou. "Como diz o papa João Paulo II, temos que ser guiados pela globalização da solidariedade, e não por neoliberais fanáticos." Sem perder o humor, e o hábito, Fidel falou por uma hora e 33 minutos com os jornalistas sobre os mais variados assuntos: guerrilha colombiana, pobreza, "imperialismo" americano, Pelé e até sobre os livros que leu quando esteve preso, em 1953 - entre os quais, a obra completa de Vitor Hugo, em 10 volumes, e um ensaio sobre a vida do compositor Bethoven. Irônico, disse que sempre foi apontado como demônio pela mídia, e que hoje se sente um "velho diabo".
"Mas não o anjo caído que lutou contra o céu, mas aquele que sempre lutou contra o império (americano)", afirmou. Fidel agradeceu a recepção calorosa dos brasileiros que o esperaram na porta do hotel onde está hospedado, em Copacabana, na noite de domingo. "É um povo muito afetuoso", disse. "Fiquei indeciso se parava para falar mais com eles ou se seguia, para não causar problemas à segurança brasileira."
O primeiro compromisso do presidente cubano no Rio foi com o primeiro-ministro da Espanha, José María Aznar, com quem tomou café da manhã. Os dois conversaram sobre a possível visita dos reis espanhóis à ilha durante a Cúpula Ibero-Americana, marcada para novembro, em Havana."Cúpula sem rei não é cúpula", brincou Fidel.
Segundo o secretário de Estado de Comunicação do governo espanhol, Pedro Antônio Martín, eles discutiram ainda a intensificação das relações comerciais entre os dois países. Hoje, a Espanha é um dos maiores investidores em Cuba, especialmente na área de turismo. O último compromisso do líder cubano, antes de ir à solenidade de abertura da Cimeira, foi com o primeiro-ministro da Itália, o socialista Massimo DAlema, com quem se reuniu por 40 minutos.

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