Fidel critica resultados da Cimeira e foge da foto oficial
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segunda-feira, 28 de junho de 1999
Por Murilo Fiuza de Melo 
Rio, 29 (AE) - O presidente de Cuba, Fidel Castro, defendeu hoje uma "nova arquitetura" para o capitalismo, que classificou como um "sistema velho e caduco", e mostrou-se pessimista quanto aos resultados práticos da 1ª Cimeira América Latina, Caribe e União Européia. "O urgente é demolir até os alicerces do sistema financeiro estabelecido e criar outro verdadeiramente honesto, democrático, equitativo e humano que ajude a desarraigar a pobreza e salva o mundo", afirmou, durante abertura do painel sobre fluxos de investimentos. "Façamos o milagre de tornar possível o impossível."
Incomodado com o documento final do encontro, a Declaração do Rio, Fidel foi o único dos 48 chefes de Estado que não quis aparecer na foto oficial do evento, provocando mal estar entre os participantes. Segundo alguns diplomatas, a justificativa era de que ele tinha ido ao banheiro no momento da reunião dos líderes para a foto oficial. O comandante deixou o Museu de Arte Moderna (MAM) logo depois do encerramento da Cimeira, sem participar do almoço oferecido pelo Itamaraty aos chefes de Estado.
O que teria deixado o presidente de Cuba contrariado foi ponto 38, da Declaração do Rio, que trata de forma genérica sobre aplicações de leis extraterritoriais. O documento, como já havia sido decidido pelos chanceleres na reunião preparatória da Cimeira, no domingo, excluiu qualquer moção de repúdio à Lei Helms-Burton, que permite aos Estados Unidos punir países e empresas que fizerem investimentos industriais na ilha. No discurso, Fidel classificou de "nada éticas" e "cínicas" as leis de extraterritorialidade.
O item 11 da declaração, sobre assuntos políticos, também deixou Cuba isolada no contexto de decisões tomadas na reunião, ao defender claramente que os países signatários devem "preservar a democracia, garantindo a manutenção de processos eleitorais livres, justos e amplos". Apesar da polêmica, Fidel assinou o documento, mas foi duro em seu discurso no painel de fluxos de investimentos.
O líder cubano lembrou que a União Européia está empenhada na reconstrução de Kosovo e na integração econômica com os países do Leste Europeu, incluindo a Rússia. "Pergunto-me, depois de tantos compromissos, quanto vai restar a União Européia para investir na América Latina e o Caribe", disse o comandante, que recordou que os investimentos diretos europeus na América Latina caíram de 54%, no fim da década de 80, para 23%, em 94.
Fidel ressaltou que o euro poderá liberar a América Latina da "tirania do dólar", mas mostrou-se receoso quanto à possibilidade de que a formação de blocos econômicos possa gerar "novas partilhas do mundo entre poderosas potências", transformando os países pobres "novamente em colônias". O presidente de Cuba fez ainda um histórico sobre o aumento da pobreza mundial e da dívida externa dos países da América Latina. "Devemos mais de US$ 700 bilhões e pagamos nos últimos nove anos por serviços da dívida externa US$ 850 bilhões, sem que, porém, essa dívida deixasse de crescer um só ano", disse.
Entre os chefes de Estado presentes à Cimeira, o que se mostrou mais crítico à Cuba foi o presidente da França, Jacques Chirac. "Eu pensei que a visita do papa João Paulo II à ilha pudesse provocar mudanças políticas positivas, mas o que aconteceu foi que o regime deu uma marcha-ré", afirmou. "Não é mais sensato manter Cuba tão fechada politicamente."
O chanceler alemão Gehard Schoereder lembrou que os alemães tiveram que superar um período ditatorial, ao se referir ao período da Alemanha nazista, para chegar novamente à democracia. O ministro das Relações Exteriores da Inglaterra, Robin Cook, preferiu responder às críticas que Fidel havia feito à ação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) em Kosovo. No dia anterior, o líder cubano mostrou receio de que os bombardeios da OTAN pudessem se repetir em outros países - inclusive na América Latina. "Posso assegurar aos cubanos que a OTAN não tem a intenção de levar a cabo um ataque à Cuba, porque o que aconteceu em Kosovo foi uma limpeza étnica, que não há paralelo em Cuba, bem ao lado de nossas fronteiras", justificou Cook.


