Fiasco de Seattle é novo desastre para política externa dos EUA
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domingo, 05 de dezembro de 1999
Por Paulo Sotero (enviado especial) 
Seattle, 05 (AE) - O presidente Bill Clinton procurou atenuar o colossal fracasso de liderança dos Estados Unidos na reunião ministerial da Organização Mundial de Comércio, que terminou na noite de sexta-feira sem sequer um comunicado final, dizendo que continuará a trabalhar pelo lançamento de uma nova rodada de liberalização do comércio global.
No sábado, enquanto os ministros dos 135 governos membros da OMC deixavam uma Seattle aliviada de vê-los partir depois de uma semana de protestos que transformaram o centro da cidade em campo de batalha entre policiais e manifestantes e custaram milhões de dólares ao comércio local, Clinton afirmou que continua "otimista" e "determinado a avançar no caminho do livre comércio e do crescimento econômico, assegurando, ao mesmo tempo, que se ponha uma face humana na economia global".
Mas mesmo assessores e ex-colaboradores de sua administração fazem avaliações mais circunspectas sobre as causas e implicações do fiasco de Seattle. Para alguns deles, Clinton e a representante de comércio da Casa Branca, Charlene Barshefsky, cometeram um grave erro de cálculo quando decidiram que poderiam usar a reunião da OMC para forçar países e grupos de países com posições irreconciliáveis um consenso em torno de um menu americano para uma nova rodada de negociações comerciais, depois do fracasso de dois meses de reuniões preparatórias.
Ira Shapiro, que foi assessor jurídico de Barshefsky, não disfarçava sua perplexidade, na noite de sexta-feira, depois do colapso da reunião. "Há uma analogia entre o que aconteceu aqui e a recente rejeição, no Senado, do tratado de proibição de testes nucleares ", disse ele. "Nos dois casos, sabia-se de antemão que as chances de sucesso eram remotas e, mesmo assim, a administração insistiu", disse Shapiro. "No caso da OMC, já estava claro (antes da abertura da reunião em Seattle) que a única coisa que unia as pessoas era um sentido de queixa, de que elas estavam sendo tratadas de forma injusta pelo sistema global de comércio."
Apresentando pela grande imprensa americana como um novo desastre da política externa do qual a atual administração dificilmente se recuperará nos 13 meses que lhe restam no poder, o colapso das negociações da OMC tem um significado especial porque se trata de uma derrota da diplomacia econômica de Clinton, o campo para o qual ele procurou reorientar a estratégia internacional dos EUA para preservar a liderança americana no pós-guerra fria. Por essa razão, vários analistas disseram que o fracasso das negociações representa também um golpe fatal nas esperanças de um presidente desacreditado por um escândalo sexual de usar o sucesso americano na economia global para redesenhar o mapa das relações internacionais e, desta forma, deixar um legado respeitável.
A vitória temporária que os sindicatos e organizações cívicas obtiveram com seus protestos nas ruas de Seattle talvez não represente "um golpe de morte na OMC", como chegou a dizer o ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia, no início da reunião, quando um acordo ainda era considerado possível. Uma de suas consequências, no entanto, é que ela fortaleceu grupos que usam argumentos políticos, como a democratização dos processos decisórios e a proteção dos direitos trabalhistas e do meio ambiente, para justificar o protecionismo.
"Quando você têm uma coisa tão secreta e podre como a OMC, basta colocá-la sob a luz do sol e ela não dura muito", disse Lori Wallack, diretora da ong Public Citizen, que coordenou várias das manifestações pacíficas em Seattle. "Nós conseguimos parar a intromissão da OMC nas decisões de política doméstica", disse ela, referindo-se a casos em que a organização condenou o uso de argumento ambientais apresentados pelos EUA para bloquear as importações de camarão, atum e certos tipos de gasolina.
John Sweeney, o presidente da AFL-CIO, a principal central sindical americana, afirmou que "o colapso das negociações representa o primeiro passo da OMC para reconhecer e lidar seriamente com questões cruciais como a importância de a organização prestar contas por suas decisões, a democratização de seus procedimentos e o respeito aos direitos trabalhistas e humanos". A necessidade de uma maior transparência na OMC é reconhecida por todos e foi mencionada por Barshefsky no final da reunião de Seattle.
O problema é que ninguém sabe como tornar o processo de decisão da OMC mais aberto e garantir, ao mesmo tempo, que sua operacionalidade.
Em que base de representação devem participar, por exemplo, as organizações não governamentais, que podem defender as causas mais edificantes mas não são eleitas? "As regras atuais da OMC não permitem a transparência e não existe ainda uma fórmula que combine a transparência com a eficiência", observou o comissão de comércio da União Européia, Pascal Lamy. Esse não é o único novo desafio criado pelo fiasco da reunião da OMC.
Para o vice-presidente e diretor do departamento econômico da Fundação Brookings, Robert E. Litan, o estrondoso descarrilhamento das negociações complicou a equação política que terá que ser resolvida, nos EUA, para superar o impasse. Ficou mais difícil, por exemplo, para que o próximo presidente americano, que tomará posse em janeiro de 2001, obtenha do Congresso o mandato negociador "fast track" negado duas vezes a Clinton. E, nas novas circunstâncias criadas pela malogro de Seattle, Litan acredita que a aprovação do "fast track" passou a ser crucial não apenas para o fechamento de uma nova rodada de negociações, mas para seu lançamento.
Até que isso aconteça, Litan diz que Clinton poderá dar um contribuição positiva se ajustar seus argumentos sobre os méritos do livre comércio à realidade. "É preciso parar de dizer, por exemplo, que a liberalização do comércio cria empregos, porque quem controla isso (a criação de empregos) é a política monetária do Federal Reserve (o banco central dos EUA"
disse ele. "O benefício da redução de tarifas para os trabalhadores é que ela funciona como uma redução de impostos e aumenta seu poder aquisitivo". O economista recomenda também que o governo responda à ansiedade e insegurança que a economia global e a liberalização do comércio trazem para as pessoas ampliando o programa federal de bolsas de estudos para retreinamento profissional e introduzindo um novo tipo de seguro de salários, que proteja a renda dos trabalhadores contra perdas provocadas por deslocamentos comerciais.


