O incêndio incontrolável em Roraima confirmou as críticas das organizações ambientalistas ao veto do presidente Fernando Henrique Cardoso ao artigo que proibia queimadas, na Lei de Crimes Contra o Meio Ambiente - aprovada no início do ano pelo Congresso. Na época, atendendo a pressões da bancada ruralista, o presidente justificou argumentando que as queimadas são uma prática tradicional na agricultura brasileira e sua punição prejudicaria os agricultores.
Em nota divulgada ontem o Fundo Mundial para a Natureza (WWF) cobrou do governo alternativas legais para compensar o veto ao artigo que proibia queimadas. Pediu a adoção de medidas para monitorar e prevenir as queimadas no País, com programas educativos para os agricultores e criação de brigadas de incêndio especializadas no combate ao fogo em florestas.
O veto ao artigo contra queimadas foi considerado uma derrota pelos responsáveis, no governo, pela política ambiental. Os técnicos se consolaram, porém, com o argumento de que outros pontos da lei poderiam punir os responsáveis por incêndios em mata e queima de madeira de lei.
O incêndio em Roraima mostrou os efeitos danosos das queimadas sobre regiões secas. O porta-voz da Presidência da República, Sérgio Amaral, tentou reduzir a importância do artigo vetado por Fernando Henrique, atribuindo o desastre em Roraima à secura da mata, provocada pelo fenômeno El Ni¤o.
Até agora, o Brasil só recebeu ajuda da Argentina e Venezuela, que têm atuação restrita no combate ao fogo. Os venezuelanos estão somente na fronteira e os bombeiros voluntários argentinos são comandados por oficiais do Corpo de Bombeiros do Distrito Federal. São os argentinos que parecem ter melhor conhecimento das técnicas para combater o fogo e, enquanto o governo brasileiro não pôs sequer um avião em operação na área, helicópteros argentinos ajudam os bombeiros.
Porém, para o comandante da Primeira Brigada de Infantaria de Selva, general Luiz Edmundo Carvalho, chefe das operações de combate ao fogo, a ajuda da Argentina só foi aceita porque faltavam homens treinados na região. ‘‘Se o oferecimento tivesse vindo no momento atual, seria dispensável’’, disse. Ele anunciou a chegada de mais 88 bombeiros de Brasília, cem do Rio de Janeiro e um número, ainda não definido, de bombeiros de Goiás. Ontem chegaram mais 52 bombeiros de Minas Gerais.
A cidade de Mucajaí, a cerca de 54 quilômetros ao sul de Boa Vista (RR), já contabiliza cerca de 200 famílias desabrigadas devido ao fogo. O município tem 11 mil habitantes e sua sede está cercada pelas chamas. A maioria das casas da cidade são feitas de madeira coberta com palha. Caso o fogo atinja a sede, a destruição deve ser total. ‘‘Estão todos desesperados, já deixaram as casas e ficam o tempo todo, dia e noite, ajudando a abafar o fogo , disse a prefeita Terezinha de Jesus Dal Corrêa (PPB). ‘‘O fogo veio seguindo o curso do rio e já está ao lado da cidade’’, afirma a prefeita.

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