Brasília, 19 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso tem tentado evitar criar polêmica publicamente com o presidente do Congresso, senador Antônio Carlos Magalhães (BA), que decidiu empunhar a bandeira de seu partido, o PFL, de aumentar o salário mínimo para o correspondente a US$ 100. Para o presidente, o mínimo de US$ 100 é inviável porque quebraria a Previdência, daí a necessidade de manter, de acordo com auxiliares, a postura de "estadista". Além do mais, o presidente não quer antecipar uma discussão que, na sua avaliação, só deveria entrar na pauta em meados de abril.
Fernando Henrique está em São Paulo, onde passa o fim de semana. A discussão sobre o aumento do mínimo dominará, novamente, as conversas políticas, para desagrado de Fernando Henrique. O presidente está irritado porque não consegue tirar esse assunto da pauta, embora tenha tentado manter a calma para o público externo. Ele faz questão de ressaltar, nas conversas com seus interlocutores, que o discurso é demagógico, já que o mínimo nesse valor não poderia ser cumprido pela maioria dos Estados e municípios, principalmente no Nordeste, inclusive muitos do PFL. Este é o caso, por exemplo, do Maranhão. Na semana passada, a governadora Roseana Sarney avisou que vai pagar o novo mínimo para todos os servidores do Estado. Só que muitos dos municípios pefelistas no Maranhão não poderão seguir as mesmas regras adotadas por Roseana, por absoluta falta de disponibilidade financeira.
De acordo com alguns estudos realizados pelo IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 75% dos trabalhadores do País que possuem carteira assinada ganham mais do que o mínimo. Dos 25% restantes, 9% ganha exatamente os R$ 136 e 16%, menos do que esse valor. Desses 16%, a maioria esmagadora está nos Estados do Nordeste, conforme apontam esses estudos.
Para alguns interlocutores, o que levou o PFL a tomar esta bandeira do mínimo - que normalmente pertence à oposição -, mesmo sabendo dos problemas de vários municípios e de alguns Estados governados pelo partido, foi o "desespero" por ter decaído do primeiro para o terceiro lugar na Câmara dos Deputados. A perda de parlamentares ocorreu em função do avanço do PSDB sobre deputados pefelistas e a coligação com o PTB. Esta manobra foi considerada uma "traição" pelo PFL, que não acredita na isenção do presidente Fernando Henrique nesse episódio. O Planalto insisite em afirmar que não participou da operação.
Para o presidente, o PFL está falando como partido político em campanha, se esquecendo das consequências da elevação do mínimo em mais de 30%. A proposta de US$ 100 elevaria o valor para pelo menos R$ 178. Embora as águas ainda estejam turvas os auxiliares do presidente apostam que com o passar dos dias, os ânimos estarão menos acirrados e "o rio voltará ao seu curso normal". Por isso, Fernando Henrique tem evitado aceitar as várias provocações de todos os pefelistas, inclusive do senador Antônio Carlos Magalhães.