Itajubá (MG) e Engenheiro Passos (RJ) - O presidente Fernando Henrique Cardoso sobrevoou hoje as cidades castigadas pelas chuvas nos Estados de São Paulo, Rio e Minas Gerais e anunciou a liberação de recursos para recuperá-las. O ministro da Integração Regional, Fernando Bezerra, que acompanhou o presidente, disse que o valor inicial dos recursos deve ser de R$ 5 milhões, podendo ser maior de acordo com a situação de cada cidade e as necessidades dos prefeitos. Além do sobrevôo, Fernando Henrique percorreu as áreas mais atingidas dos municípios de Engenheiro Passos, no médio Paraíba fluminense, e Itajubá, no sul de Minas.
Os recursos, segundo o presidente, serão obtidos com medida provisória, que assinará, liberando um crédito especial para ajudar na reconstrução das cidades mais atingidas na Região Sudeste. "A liberação da verba é certa, porque numa hora destas o governo não vai fazer picuinha com dinheiro", disse. "A ajuda, portanto, não depende mais do governo federal; agora os prefeitos terão que avaliar o que será preciso fazer", concluiu. Calamidade - Fernando Henrique passou o dia sobrevoando de helicóptero as áreas mais atingidas de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais e, apesar do mau tempo, desceu em Engenheiro Passos e Itajubá onde foi decretado estado de calamidade pública desde de domingo, quando iniciou a chuva. Pelo menos 80% de Itajubá está submersa. "Eu vim expressar a minha solidariedade e o que eu vi aqui foi chocante", afirmou, após aterrisar na inundada Itajubá.
O governador de Minas, Itamar Franco, considerou a visita do presidente ao seu Estado, um "ato demagógico e provocativo". Segundo Itamar, Fernando Henrique tem agido mesquinhamente com o Estado de Minas desde que assumiu o segundo mandato. "Se o governo quisesse fazer alguma coisa, bastaria desbloquear os recursos do governo de Minas e dizer que este montante só poderia ser aplicado nas áreas flageladas pela chuva", disse o governador. "O presidente Fernando Henrique é um ser anfótero" (que segundo o dicionário Aurélio refere-se à pessoa que reúne em si duas qualidades opostas).
O presidente aproveitou sua visita a Itajubá para fazer uma crítica implícita a Itamar, que não mandou nenhum representante para recepcioná-lo. "As pessoas estão sem água, e isto é uma questão estadual", disse. "Agora, imagino que o governo estadual irá resolver o problema, porque o momento é de nos darmos as mãos; da minha parte pode contar comigo". Na visita às duas cidades, Fernando Henrique chegou acompanhado dos ministros Pimenta da Veiga, das Comunicações, e Fernando Bezerra
da Integração Regional; dos senadores José Roberto Arruda (PSDB-DF) e Francelino Pereira (PFL-MG).
O presidente deixou Brasília a bordo do avião presidencial, às 9h30, e desembarcou, uma hora depois, em São José dos Campos (SP). De lá, seguiu de helicóptero do Exército até Itajubá, mas não conseguiu teto para aterrisagem. A assessoria da Presidência, então, mudou o itinerário e seguiu primeiro para Engenheiro Passos, onde ficou por 45 minutos. Depois, ele e sua comitiva se deslocaram para a cidade mineira onde permaneceram de 13h30 até às 15 horas. O grupo desembarcou no campo de futebol do 4º Batalhão de Engenheria e Combate do Exército. Ali, o presidente assistiu a um palestra sobre a situação de calamidade na região e depois percorreu em um caminhão militar o bairro chamado Varginha. A recepção da população foi fria e muitos chegaram até a vaiar o presidente. Somente as crianças o aplaudiram. Itajubá, segunda cidade visitada pelo presidente, é um reduto tucano. Além do prefeito, Francisco Marques Ribeiro, que é do PSDB, a cidade é terra natal do senador Arruda, que acompanhou Fernando Henrique na viagem. "Estou visitando a cidade onde nasci, estudei e me formei, mas isso não é hora de briguinhas menores e acho que o governo mineiro está fazendo o que pode", disse Arruda. Segundo o prefeito de Itajubá, o governador Itamar Franco já prometeu ajudar a cidade. Ribeiro contou que o chefe da Casa Civil de Minas, Henrique Hargreaves, visitaria hoje o município, mas a viagem acabou sendo cancelada por falta de teto. De acordo com a Defesa Civil de Itajubá, de domingo até a manhã de hoje cinco pessoas morreram e outras 1,5 mil estão desabrigadas em consequência das chuvas. Itajubá tem 82 mil habitantes. O nível do Rio Sapucaí, que corta a cidade, subiu 7,60 metros acima do normal. A última grande enchente que atingiu o município aconteceu em 91, quando o nível do rio chegou a 6,90 metros acima do seu leito, segundo informações da Defesa Civil.
O prefeito disse que a estimativa é de que o número de desabrigados chegue a cinco mil pessoas. Segundo a Defesa Civil, o departamento de Biologia do Exército já liberou 5,7 mil doses de vacinas contra febre tifóide e tétano. Engenheiro Passos - Em Engenheiro Passos, o ministro da Integração Regional, Fernando Bezerra, esclareceu que o valor de R$ 5 milhões liberados será apenas o inicial. Lá, o presidente visitou a localidade Vila Paulo Vila Forte, distrito de Itatiaia
a mais atingida. Dezenas de moradores tiveram as casas invadidas pelas águas do Rio água Branca, que transbordou e também alagou a Via Dutra.
Fernando Henrique chegou à Engenheiros Passos às 12h20 de helicóptero e aterrissou no heliporto das Indústrias Nucleares do Brasil, onde já o estavam aguardando o governador do Rio, Anthony Garotinho, e o prefeito de Resende, Eduardo Moahas. "Os Estados castigados receberão ajuda federal o quanto antes para recuperar os prejuízos", prometeu o presidente. Antes, Fernando Henrique sobrevoou a Rodovia Presidente Dutra. "Vi um ponto congestionado entre Resende e Cruzeiros", disse, referindo-se ao deslizamento de terra em Lavrinhas.
Ele percorreu a pé a localidade e durante 30 minutos visitou casas alagadas com a enchente. "É uma honra ter o presidente na nossa casa", disse o encarregado de obras desempregado José Lourenço de Lima, de 36 anos, apesar do presidente não travar nenhum diálogo com o admirador. Ele mora na vila há um ano com a mulher e três filhos numa casa pequena de dois quartos e um banheiro. Fernando Henrique tirou fotos com moradores. "Presidente sou sua fã e foi bom o senhor ver a nossa tragédia", disse emocionado a dona de casa Marília de Biase, de 56 anos.

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