Brasília, 14 (AE) - Diante de uma platéia de empresários e na presença dos presidentes do Senado, Antônio Carlos Magalhães, e da Câmara, Michel Temer, o presidente Fernando Henrique Cardoso fez um mea culpa pelo ataque feito ontem ao Congresso, no Rio de Janeiro, pela morosidade na aprovação das reformas. Hoje, ao empossar o novo ministro do Desenvolvimento, Alcides Tápias, Fernando Henrique admitiu que suas palavras foram "mal postas", avisou que terá humildade para reconhecer erros e voltou a pedir pressa na aprovação das reformas, particularmente a tributária.
Ainda no Planalto, o senador Antônio Carlos Magalhães, comemorou o recuo de Fernando Henrique. "Ontem o presidente pisou na bola", ironizou ACM. "Hoje ele teve a grandeza de procurar recuar no que disse." E acrescentou: "ele já pagou seu erro e não vamos ficar aqui a comentar o erro do presidente; agora as coisas estão mais fáceis". Também irônico, o deputado Michel Temer (PMDB-SP) classificou o mea culpa do presidente como "uma nova tentativa" de elogiar o Congresso.
Ao apresentar suas desculpas à platéia, Fernando Henrique disse: "ontem, numa palavra direta, franca, de muito entusiasmo, eu pedi apenas uma coisa, que o Brasil inteiro pede e o presidente tem de expressar o pensamento do Brasil: urgência". Segundo ele, o pedido de urgência é estensivo a todos - governo, Congresso, sociedade, incluindo ele. Fernando Henrique defendeu a busca de convergência e afirmou que é preciso evitar que prosperem "as más informações" e "interpretações precipitadas".
Aproveitando a presença dos empresários, o presidente voltou a pedir urgência na aprovação da reforma tributária e chegou a citar pensador italiano Maquiavel, ao falar das dificuldades de se fazer as reformas, por elas prejudicarem interesses que estão constituídos. "A mera idéia de reforma provoca urticária dos que nada querem mudar", desabafou, lembrando que o reformador, em certos momentos, "é um ser isolado", que tem de ter "coragem, firmeza, perseverança e convicção".
Para o presidente do Senado, o apelo de Fernando Henrique foi a primeira demonstração pública de empenho do governo pela aprovação da reforma tributária. "A reforma tributária não foi feita até agora por culpa do próprio governo", atacou ACM. "Se o governo hoje, sim, tenta fazê-la, não tem porque o Congresso negar." O presidente Michel Temer, por sua vez, acredita que a reforma tributária será aprovada ainda este ano na Câmara.
Guerrilheiros - Ressaltando que a escolha de Alcides Tápias para o ministério é uma demonstração de "sensibilidade do clamor que existe pelo desenvolvimento econômico", Fernando Henrique aproveitou para brincar com a confusão que o ministro fez ao se apresentar como um "guerrilheiro" que atende ao chamado do presidente para a guerra pelo País.
"Eu tinha pedido aos meus líderes, aos ministros, aos líderes dos partidos que me apóiam, que fossem eles todos guerreiros, em uma guerra pelo Brasil", disse, em uma referência ao discurso feito na última reunião ministerial, na semana passada. "Eu pedi guerreiros e recebi, além dos guerreiros, um guerrilheiro e um governo e um País que tem guerrilheiros e guerreiros não tem nada mais a fazer a não ser confiar mais e mais no futuro, como eu confio em Alcides Tápias", completou.
Elogios - O presidente começou seu discurso lembrando que a idéia de criar o Ministério do Desenvolvimento surgiu, no ano passado, em plena crise financeira, em conversa com o ex-ministro Luiz Carlos Mendonça de Barros. Em seguida, comentou que "o sonho" de que ele ocupasse o cargo não se concretizou por causa das "maldades e injustiças que a história às vezes prega naqueles que mais se empenham por fazê-la avançar".
Fernando Henrique não se esqueceu de elogiar o ex-colaborador Clóvis Carvalho, lembrando que ele foi o braço direito na formulação do Plano Real, "quando então exercia, com uma certa tirania o domínio sobre os demais técnicos que se empenhavam em refazer as bases para o desenvolvimento do Brasil".

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