Brasília, 31 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso retomou as conversas com o PFL em torno do valor do salário mínimo, mas abriu pouco espaço para negociação. A margem de manobra não inclui o mínimo de 177 reais a partir de janeiro, como quer o presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA). "O único acordo possível é na data-base", resume um amigo do presidente, referindo-se à antecipação para o início do ano do reajuste tradicionalmente concedido a partir de 1.º de maio.
Os limites do governo, que se recusa a antecipar valores para o mínimo em 2001, foram postos por Fernando Henrique ao presidente nacional do PFL, senador Jorge Bornhausen (SC). Interlocutores do PFL e do Palácio do Planalto informam que o produto concreto da conversa dos dois, durante a viagem a Biguaçu (SC), hoje, foi a decisão de ganhar tempo para esfriar os ânimos.
Os sinais públicos de boa-vontade emitidos pelo Planalto e dirigentes pefelistas nesta negociação escondem a grande dificuldade de chegar-se a um acordo nos bastidores. "A chance do Antonio Carlos aceitar o mínimo de 151 reais agora, sem que o governo antecipe números para janeiro, é nenhuma", garante um dos mais próximos correligionários do senador baiano. "O governo não pode pôr todo o esforço fiscal do governo a perder por conta de vaidade política", rebate o líder do PSDB na Câmara, Aécio Neves (MG).
Fernando Henrique, por sua vez, deixou clara não apenas a recusa em tratar de valores como a mágoa com ACM. É verdade que o senador e o PFL estão aborrecidos com a presença e o discurso do presidente no jantar organizado pelos tucanos, em que apenas os pefelistas ficaram de fora. "Mas o presidente também não se conforma com o fato de ACM ter apoiado os 151 reais na sexta-feira (24) para romper na segunda (27), depois de ler os jornais", conta um interlocutor palaciano.
Pefelistas do grupo de ACM admitem até a possibilidade de convencer o cacique baiano a fechar um acordo em torno de um número inferior aos 177 reais. "No escuro é que não dá para acertar", argumenta um deles. Mas, segundo o interlocutor palaciano, a equipe econômica não aceita negociar cifras na base da "bola de cristal". A fonte avalia que o que mais pesa hoje, contra este acerto, não são os argumentos econômicos, mas o fato de o presidente estar "cheio de receber pancadas e de ver sua autoridade desafiada por ACM". Refere-se à queda de braços constante entre o Planalto e o senador, que também irrita o comando pefelista, sempre pego de surpresa.
Por isso mesmo, os "bombeiros" do Planalto e do partido aprovaram o acerto produzido em Santa Catarina, que adia uma definição em pelo menos dez dias. Eles consideram "providencial" a agenda palaciana que põe Fernando Henrique em viagem oficial Costa Rica e Venezuela por toda a próxima semana.
Esses mesmos bombeiros apostam nos bons efeitos de uma semana política calma. Durante o período de ausência do titular, o vice-presidente Marco Maciel ficará no comando. Reconhecido pela habilidade nas costuras de bastidor, o vice deverá ajudar Fernando Henrique no afago ao PFL. Afago este que o presidente estendeu a ACM para evitar qualquer impressão de que o Planalto e o PMDB estão combinando o jogo nos ataques ao presidente do Senado.
O Planalto avalia que o presidente nacional do PMDB e líder do partido no Senado, Jáder Barbalho (PA), "está jogando muito pesado" nos ataques ao presidente do Senado por conta do mínimo e quer desfazer a impressão de uma parceria preferencial com os peemedebistas. Isto explica o telefonema do presidente a ACM, na noite de quarta-feira, para agradecer a ajuda na votação da MP que trata do refinanciamento das dívidas das empresas para com a União.

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