Brasília, 23 (AE) - Um dia depois de receber pedido de audiência dos representantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), o presidente Fernando Henrique Cardoso respondeu às críticas feitas pelo coordenador nacional do movimento, João Pedro Stédile, que condenou a descentralização do programa de reforma agrária. Ao defender o entrosamente entre governos federal, estadual e municipal para a solução dos problemas sociais, inclusive reforma agrária, o presidente disse que "não há outro caminho (a não ser o entrosamento), apesar das incompreensões (à proposta do governo) daqueles que são mais apaixonados por razões políticas, do que por questões sociais".
Para Fernando Henrique, não há como imaginar que a reforma agrária possa ser feita sem apoio dos Estados e municípios. As afirmações do presidente foram feitas em discurso
no Palácio do Planalto, durante a solenidade de assinatura de convênios de garantia de renda mínima para manter toda criança na escola. Ele criticou o movimento sem citar o nome de Stédile, nem se referir ao MST. Ao final da cerimônia, ao ser indagado se iria ou não receber os líderes do MST, o presidente preferiu não responder. Na opinião de FHC, a tese de descentralização e de entrosamento entre todas as esferas de poder "vale para todos os tipos de programas sociais", entre eles, a reforma agrária. "Não há possibilidade de um programa social efetivamente ser implementado sem entrosamento entre governos federal, estadual e municipal", observou. O presidente explicou que a assinatura de convênios com os Estados, para descentralização da reforma agrária, não representa "a retirada de campo e da responsabilidade do governo federal". "Mas precisa de entrosamento, independente da cor partidária de quem, eventualmente, esteja exercendo esta ou aquela função, em qualquer dos níveis da administração", prosseguiu.
Na semana passada, o governo assinou convênios com 20 Estados a fim de transferir para eles a responsabilidade da reforma agrária. Segundo fernando Henrique, não se pode pensar de maneira diferente em um País com o tamanho do Brasil, e com mais de 5500 municípios. Para ele, as críticas à descentralização são infundadas, até porque o trabalho está sendo iniciado agora. Stédile havia classificado como "jogo de empurra" a descentralização da reforma agrária alegando que agora o governo federal diz que a questão está com o governo estadual e este devolve o problema com a desculpa que não tem dinheiro para executar os projetos.
O presidente afirmou, ainda, que não há mais no mundo de hoje organização estatal trabalhando sozinha, mesmo nos seus vários níveis. "O Estado, ressaltou, é insuficiente para dar conta da dinâmica e das necessidades da sociedade. É preciso que haja crescente cooperação dos setores da sociedade, do trabalho voluntário dos organismos não governamentais porque senão não se consegue atender ao objetivo maior que é o da melhoria da condição de vida dos mais pobres no nosso País", completou.

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