Brasília, 27 (AE) - Em discurso hoje na solenidade de assinatura da medida provisória (MP) do crédito educativo, o presidente Fernando Henrique Cardoso respondeu às acusações de suposto favorecimento a um dos consórcios no leilão da Telebrás. Veja os principais pontos do discurso: Integridade: "Estamos aqui numa nação e não num mercado. É bom que se diga que essa é uma preocupação permanente do governo. Até mesmo quando levianamente alguns imaginam que o governo ter-se-á embrenhado em assuntos privados quando, na verdade, o governo estava defendendo o interesse público; defendendo com energia. Porque com a serenidade que nos caracteriza, com a tranquilidade do dever cumprido, eu até diria, com a satisfação de dizer que chego aos 68 anos de uma vida de trabalho, nunca, e eu friso, nunca tive qualquer coisa, a mais remota, que pusesse suspeição de algum interesse no exercício do cargo público, que não fosse o do povo, do meu País. Nunca. Com essa mesma tranquilidade, acho que temos de levar adiante as transformações do Brasil. Sem temer; sem confundir as coisas. Sem imaginar porque houve um grito aqui, uma interpretação leviana acolá." Responsabilidade: "É leviana a interpretação, quando ela toma a parte e não mostra todo o contexto, quanto ela pega o fragmento e transforma o fragmento em uma coisa desproporcionalmente grande. Eu, como sou cientista social, quando faço exegeses de textos, se algum aluno meu fizesse isso, eu reprovaria por ser incompetente ou imoral, ou não ter a capacidade de entender do que se trata. Mas como não sou mais professor, sou apenas presidente da República, quase sempre calo. E quando calo, não calo porque consenti; não calo porque concordei; não calo porque temi. Calo porque sei a responsabilidade do meu cargo. O cargo que o povo me pôs aqui, por duas vezes, já. Calo porque muitas vezes é mais fácil vociferar do que atuar. E nós estamos atuando. Atuando, transformando, fazendo o Brasil progredir." Impeachment: "Por vezes, há quem confunda a Constituição Federal. Até mesmo o instituto tão importante como o do impeachment como uma transgressão do código de trânsito e a toda hora toma multa, multa. Meu Deus. Há limites na paciência nacional. No ver a leviandade com que certos setores do País e da oposição se comportam diante de fatos que são tranquilos, serenos, que podem ser julgados, podem até estar errados, mas que não podem ser objetos de utilização pela paixão política e muito menos pela voracidade de mercado que faz esquecer que nós estamos numa nação." Moralidade: "Hoje, porque aqui se está discutindo uma questão que é da educação; o atendimento por demanda da sociedade, quero terminar dizendo que não há nada, não só no governo, mas na vida
que se mantenha por longo prazo, que responda ao julgamento tranquilo da história, que não tenha fundamento moral. Sem moral
não há progresso. E eu me orgulho em dizer: este governo é um governo de moral. É um governo que cumpre, dentro do possível, das condições, o que diz que é necessário. O que mostrou que é necessário. Cumpre seu programa da maneira mais transparente possível, sempre que possível. E um governo que tem na moral seu fundamento, não pode transigir com leviandades, com as interpretações malévolas, com as insinuações, com as distorções, seja lá de quem for. Mas muito menos ainda quando se trata de interpretações, distorções, aleivosias sobre o presidente da República." Privacidade: "Quando se tenta banalizar a apropriação da privacidade de alguém simplesmente para fazer barulho, e outros aproveitam-se disso como ensejo para banalizar um instrumento constitucional, da maior respeitabilidade, transformando ou querendo transformar este país em uma terra sem lei, sem justiça
sem (inaudível) dos interesses em jogo, sem responsabilidade." Cidadania: "Espero que, com essas bolsas de estudo, nós possamos formar cidadãos que tenham realmente o compromisso moral mais forte do que aquele que até hoje foi possível alcançar em muitos dos nossos costumes. E que esse compromisso moral não seja apenas uma hipocrisia, que não seja apenas uma apelação pseudoética para disfarçar a falta de capacidade de reconhecer o imenso esforço que está sendo feito neste país no dia-a-dia. Não por mim, apenas, não pelos ministros, apenas, mas pela sociedade inteira." Pelourinho: "A sociedade que tem de se orgulhar de si mesma, que tem de se sentir como uma sociedade capaz de enfrentar desafios grandes, como foi para enfrentar essa crise econômica. Capaz de enraizar a democracia e de separar o que é abuso do que é crítica; o que é verdade do que é suspeita. A suspeita que tem fundamento da suspeita que não tem nenhum. Eu tenho certeza que esse é o único caminho que nos levará a evitar que no futuro pessoas de boa fé, trabalhadoras, que têm sua vida dedicada, sejam postas no pelourinho, simplesmente pelas razões já alegadas por mim. E só há um caminho para isso. É mais educação, mais educação, mais educação. Não vai bastar o crescimento econômico. Não vai bastar a distribuição de renda. Mais educação e educação inspirada pela noção fundamental que é a consciência do que se está fazendo. E uma forte motivação moral que não confunda nunca o interesse particular com o interesse público. Isso vale não só para quem exerce funções públicas. Vale para os que criticam as funções públicas. Não devem confundir seus interesses particulares, porventura existentes, por justos que seja, com o julgamento dos homens públicos."

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