FHC resiste a idéia de elevar mínimo acima de R$ 150
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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2000
Por Gerson Camarotti e Isabel Braga 
Brasília, 24 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou hoje que o salário mínimo só será equivalente a US$ 100, proposta encampada pelo PFL, quando a economia brasileira estiver preparada. Provocado com o exemplo do Uruguai, cujo presidente, Julio Maria Sanguinetti está em visita ao País, que hoje já paga esse valor, o presidente foi irônico: "O salário será igual quando o custo de vida do Brasil for igual ao do Uruguai", respondeu.
O debate sobre o mínimo foi o principal assunto da conversa que o presidente teve com o líder do PSDB na Câmara, Aécio Neves (MG), hoje de manhã. Ele mostrou-se disposto a discutir a fixação do mínimo em valor acima de R$ 150, uma das propostas em estudo pela equipe econômica. "Mas para isso, é preciso encontrar uma fonte", frisou Fernando Henrique, segundo relato do deputado tucano. Aécio chegou a sugerir que o aumento poderia ser conseguido retirando uma parte da arrecadação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF), ou até mesmo do Fundo de Combate à Pobreza.
Previsão - Uma fonte do Palácio do Planalto disse hoje que a disputa política entre os partidos poderá forçar o governo a antecipar o anúncio do novo mínimo para meados de março.
Hoje, PFL e PSDB voltaram a divergir. Os dois partidos agora disputam a autoria da melhor proposta de aumento para o salário mínimo. "Eu gostaria que nós chegássemos a algo como R$ 160", disse Aécio. As declarações do tucano foram atacadas pelos pefelistas, que hoje tiveram encontro com o ministro da Fazenda, Pedro Malan, para discutir o assunto. "Agora, outras parcerias virão juntar-se à iniciativa do PFL; inclusive o PSDB", disse o vice-presidente do partido, senador José Jorge (PE).
Reação mais forte partiu do líder do PFL na Câmara, Inocêncio Oliveira (PE), desafeto de Aécio. "Quem dizia que o mínimo acima de R$ 144 seria um desserviço à Nação não tem autoridade para falar em R$ 160", reagiu, lembrando as críticas feitas pelo deputado mineiro. "Essa é uma manobra de Aécio para querer enganar a sociedade brasileira", acusou Inocêncio. "Ele quer roubar uma bandeira que não lhe pertence."
O presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), voltou a reagir contra a proposta de retirar recursos do Fundo de Combate à Pobreza para custear o mínimo. "O fundo da pobreza nós temos de utilizar diretamente no combate à pobreza", disse.
Apesar das divergências na Câmara, a reaproximação entre o PFL e o governo vem sendo selada nos bastidores. Na quarta-feira
os convidados do jantar oferecido ao presidente Sanguinetti puderam presenciar a troca de abraços entre Fernando Henrique e ACM. "Eu gosto dele e ele gosta de mim", disse o senador baiano, após receber um abraço do presidente. "Nós divergimos, mas quando ele sabe que estou com algum problema nunca deixa de ligar para saber como estou passando", acrescentou. "Não deixe que a imprensa nos intrigue, não acredite no que eles falam de mim", pediu Fernando Henrique a ACM, diante dos jornalistas.
"Eu já disse para eles que concordo com tudo que o senhor disse", devolveu ACM. "A gente diverge, mas depois conversa e se acerta", resumiu, sorrindo. "Ele é o homem mais preparado para dirigir esse País", declarou o senador. "Eu sempre disse isso, apesar dos seus defeitos."
ACM insistiu que Fernando Henrique tem o defeito de adiar decisões importantes e contou que numa conversa recente lembrou a ele que o ex-presidente Getúlio Vargas também adiava decisões, contando que o tempo ajudaria a dirimir os conflitos, mas suicidou-se com um tiro no peito. "Ele não gostou quando eu disse isso e respondeu que não faria a mesma coisa."


