FHC reconhece em discurso que protestos são legítimos
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sexta-feira, 21 de abril de 2000
Por Isabel Braga Enviada Especial 
Porto Seguro, BA, 22 (AE) - Embora venha rechaçando a recente onda de violência envolvendo movimentos sociais em diversas partes do País, o presidente Fernando Henrique Cardoso reconheceu serem legítimos os protestos de representantes do movimento negro, dos sem-terra e dos índigenas durante a solenidade de comemoração dos cinco séculos do descobrimento. "Hoje, no Brasil, temos a consciência aguda das chagas sociais que fazem parte da herança destes 500 anos", afirmou em discurso feito no Hotel Vela Branca, antes de almoço com o presidente do Portugal, Jorge Sampaio.
"Celebrar uma herança histórica não significa idealizar o passado", advertiu Fernando Henrique, que reduziu sua participação nas comemorações em Porto Seguro para preservar-se de eventuais confrontos entre manifestantes e policiais. Toda a programação de ontem sofreu atrasos por causa das fortes chuvas em Porto Seguro. A expectativa é que solenidades em espaço aberto poderiam ser canceladas, mantendo o presidente e seus convidados em locais fechados.
Em seu discurso, o presidente admitiu, citando os representantes de tribos de índios presentes na cidade, que a expansão das fronteiras daquilo que viria a ser o território brasileiro deu-se ao preço da eliminação dos povos indígenas. "Demarcamos e vamos continuar demarcando as terras indígenas", garantiu, citando também os protestos dos negros: "Eles são os ecos do passado escravista, oligárquico e patriarcal que até hoje pesa sobre a sociedade brasileira e faz dela uma das sociedades mais injustas do mundo", afirmou Fernando Henrique.
Sobre o movimento dos trabalhadores sem-terra, o presidente reconheceu que existem motivos concretos para os protestos, mas voltou a criticar a forma de atuação do MST. "A presença deles traz a lembrança incômoda, mas necessária, de que a concentração da propriedade da terra continua a determinar a exclusão de milhões de brasileiros do benefício do desenvolvimento, apesar dos avanços consideráveis da reforma agrária que conseguimos nos últimos anos", discursou.
"Tenho expressado de maneira muito clara minhas divergências com o viés antidemocrático do discurso e das formas violentas de ação conduzidas por algumas lideranças deste movimento", ressaltou Fernando Henrique. "Mas isso não diminui aos meus olhos e aos olhos da nação a autenticidade do drama social vivido por estes trabalhadores." O presidente ressaltou que a "mensagem mais importante que as vozes dos excluídos nos trazem não diz respeito ao passado mas ao futuro". Segundo ele, chegou o momento de virar a página da exclusão na história do Brasil. "O momento chegou porque, com o nível de desenvolvimento que já alcançamos, a pobreza do País não serve mais de desculpa para a miséria do povo", afirmou.
Fernando Henrique citou a democracia brasileira como principal instrumento que levará à "inclusão social" no Brasil. Segundo o presidente, "temos razão de confiar sobretudo na nossa determinação de escolher nossos próprios caminhos, exercitando as virtudes básicas do modo democrático de convivência".
O presidente exortou o respeito à lei e à autoridade eleita. "A tolerância com as divergências, a busca paciente do consenso nas questões que afetam toda a sociedade", afirmou, em uma referência indireta aos protestos do MST, que ameaçavam a tranquilidade da comemoração dos 500 anos de descobrimento.
Em razão da onda de protestos e invasões de prédios públicos por manifestantes, o presidente afirmou que a convivência democrática, apesar de estar consolidada, ainda precisa amadurecer. "A democracia tem pela frente um longo processo de aperfeiçoamento institucional para garantir os níveis de descência e transparência na vida política que são exigidos por uma sociedade cada vez mais informada", afirmou.
Fernando Henrique garantiu que o País continuará empenhado na luta contra a corrupção e a impunidade, "que também ameaçam a convivência democrática". Para isso, será mobilizado "tudo o que há de sadio e descente na sociedade brasileira". "Devemos isso a nossos filhos e às gerações futuras", discursou O presidente fez um apelo para que a celebração dos 500 anos "fique na história com o selo deste compromisso".


