Brasília, 15 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso reagiu hoje às críticas de que teria recuado no discurso de segunda-feira (13), no Rio, quando culpou o Congresso pelo atraso nas reformas. Falando a uma platéia de educadores, na abertura do Seminário Novo Ensino Médio, Fernando Henrique voltou a se explicar, afirmando que "o presidente não tem de se desculpar por pedir urgência a ninguém."
"Pelo contrário, pede urgência porque o Brasil quer a urgência", prosseguiu ele, acentuando que "a exigência de reforma urgente não pode ser diminuída, nem pode ser, a cada instante, minada pela idéia de que há um vai-e-vem, hoje avança e amanhã recua." Ele afirmou: "Devem desculpar-se os que não prestarem atenção às urgências do País."
Fernando Henrique não gostou de ver as palavras do discurso de posse do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior,Alcides Tápias, no Planalto, soarem como um pedido de desculpas ao Congresso e uma rendição frente aos presidentes do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), e da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP). O objetivo do presidente era amenizar o discurso, uma vez que, hoje, os deputados iam promover a primeira votação importante depois que os trabalhos foram retomados - a negociação da dívida dos ruralistas - e não deseja gerar um conflito que levasse o governo a perder em plenário.
Para o presidente, as reformas são necessárias e urgentes para que haja dinheiro com o objetivo de financiar os projetos sociais. "Repito o que disse ontem (14), anteontem e em toda a minha vida nesses últimos tempos: há urgência nas reformas." Ele disse: "Quando insisto na necessidade das reformas, não é pelo amor à estabilidade de uma moeda, é pelo amor ao povo do País, que só terá acesso à educação, à saúde, à melhoria, se tivermos condições que permitam ao Estado de se refinanciar e que permitam à sociedade investir." Na opinião do presidente, "a urgência não requer desculpas". "Não precisa pedir desculpas para pedir pressa", disse ele, acrescentando que, sem abandonar o caminho de querer mais reformas, deve-se, sem dúvida, discutir o conteúdo delas. "Mas não podemos olhar paralisados ou deixar que as grandes questões se percam nas pequenas, no que é acessório", avisou ele, pedindo "grandeza por parte dos homens públicos" e "não picuinhas".
O presidente queixou-se da cobertura dada pela imprensa às declarações, que estavam sendo mal-interpretadas, de acordo com ele. Pediu ainda, no discurso aos educadores, no Itamaraty, que se encarassem as pessoas "com mais respeito" e que as palavras fossem reproduzidas como ali estava sendo dito, dentro do contexto.
Ao insistir na necessidade das reformas, o presidente considerou que "ninguém muda o Brasil, se não for capaz de mobilizar a sociedade, se não for capaz de mobilizar, numa parceria, permanente e ativa, o conjunto das esferas administrativas". Fernando Henrique reconheceu que as mudanças estão ocorrendo, citando, por exemplo, os avanços no campo da educação. Advertiu, no entanto, que "há muita gente que tem poeira nos olhos, há muita gente que persiste em olhar pelo retrovisor". "Paciência", disse, ironizando, ao comentar que também existem os que vêem as mudanças.
Mesmo defendendo pressa nas reformas, o presidente falou que compreende que "ninguém muda uma nação de repente", uma vez que as mudanças fazem parte de um processo. "Claro, os mais precipitados ou os mais pobres de espírito imaginam que as mudanças podem ser feitas simplesmente à machadinha", comentou ele. "Mesmo as mudanças, quando ocorrem rupturas, não acontecem de repente", observou, acrescentando que elas tem "ziguezagues". No caso da educação, afirmou, esse ziguezague não existe porque as alterações estão sendo feitas progressivamente.
Ao falar sobre os números otimistas da educação, Fernando Henrique declarou que "tem horror à indústria do pessimismo". Para ele, as metas apresentadas pelo governo, como colocar 10 milhões de alunos nas escolas de ensino médio, até o fim do mandato, são perfeitamente factíveis. Ele lembrou que, quando se apresentam números, à primeira vista, vem a descrença e que é a esse pessimismo que ele reage. "Não gosto do artesanato do pessimismo", prosseguiu ele, completando que é preciso escapar dessa "artesania constante de minar a crença do Brasil nele próprio".

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