José Paulo Lacerda/Agência Estado‘‘Aliados’’O presidente da CUT, Vicente Paulo da Silva, conversa com o presidente após entrega da pauta do movimento Grito da Terra, no Palácio do Planalto. Ele pede a FHC que receba a comitiva de sem-terra que chega a Brasília no dia 17 de abrilO presidente Fernando Henrique Cardoso disse ontem que o governo e os movimentos de reivindicação social devem ser aliados. Falando como ‘‘sociólogo’’, FHC disse que ‘‘a luta é necessária e o governo tenta fazer que pode’’. ‘‘E sabe o governo também que precisa dos movimentos para que as coisas avancem. Temos de ter uma relação (...) dialética entre os movimentos e o governo, o movimento e o Estado’’, afirmou.
As declarações foram feitas durante cerimônia de entrega da pauta do movimento ‘‘Grito da Terra Brasil’’, no Palácio do Planalto. Na solenidade, FHC recebeu documento de 30 páginas com reivindicações de trabalhadores rurais, seringueiros, pescadores e índios. A entrega da pauta foi feita pelo presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vicente Paulo da Silva (Vicentinho), e pelo presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), Francisco Urbano.
Urbano reclamou que os incentivos dados aos trabalhadores não chegam ‘‘na ponta’’, ou seja, nos próprios beneficiados. Em seu discurso, FHC criticou a estrutura do Estado brasileiro que, segundo ele, ‘‘não foi feita para atender a maioria’’.
A crítica às estruturas se estendeu ao Banco do Brasil e a Caixa Econômica. ‘‘Os dois foram à falência, só não falem (sic) porque são do governo’’, disse. ‘‘Nós começamos a reorganizar, a colocar em pé essas instituições. Ainda assim elas não têm a capilaridade, os canais para chegar a quem necessita’’, concluiu, dizendo que a desorganização começou no governo passado.
FHC não deixou claro se estava se referindo ao governo Collor (1990-92) ou ao governo Itamar Franco (1992-94), do qual o atual presidente participou primeiro como ministro das Relações Exteriores e depois como ministro da Fazenda.
Já ao falar das recentes mudanças no Imposto Territorial Rural (ITR), FHC mencionou o ex-presidente Fernando Collor de Mello. ‘‘O Collor, para dar um exemplo extremo, propôs uma modificação pequena no ITR. Foi derrotado’’, disse, lembrando que, como senador, votou a favor da proposta.
Urbano aproveitou a ocasião para pedir a FHC uma política de recuperação do salário mínimo. ‘‘Não precisa ser 40% no outro dia, mas 30% pode ser.’’. FHC riu.
Após a solenidade, Vicentinho e Urbano fizeram um pedido formal ao presidente para ele receba os trabalhadores sem terra, que chegam a Brasília, com sua marcha nacional, no dia 17 de abril. Segundo Vicentinho, FHC vai refletir sobre o assunto. O sindicalista também entregou ao presidente sua proposta de redução da jornada de trabalho e controle das horas-extras.
A CUT propõe que a jornada passe de 44 para 40 horas semanais, com o objetivo de gerar mais empregos.
Marcha - O líder do PSDB na Câmara, Aécio Neves (MG), defendeu ontem a marcha de 600 trabalhadores rurais que se dirige a Brasília e disse que seu partido quer ser o ‘‘instrumento político’’ para intermediar as negociações do governo com os sem-terra.
A defesa do líder é a primeira manifestação da base governista sobre o assunto. A comitiva vem a pé de três Estados para protestar contra a política agrária adotada pelo governo.
Aécio havia nomeado um grupo parlamentar para tratar de questões ligadas à reforma agrária. Hoje, os integrantes se reúnem para traçar a estratégia que será usada na chegada dos sem-terra a Brasília.

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