Brasília, 19 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso promoveu ontem (18), no mesmo dia em que demitiu o ministro da Defesa, Élcio álvares, uma recepção social com 51 dos 81 senadores, da qual participaram os ministros da Fazenda, Pedro Malan, e da Casa Civil, Pedro Parente, e o presidente do Banco Central (BC), Armínio Fraga Neto. Concebida inicialmente como uma reunião do presidente com os senadores da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), o evento foi marcado pela discussão de amenidades, com FHC evitando tocar em temas polêmicos e se dedicando a brincadeiras com os parlamentares.
"Que dia difícil eu tive!; mereço tomar um uísque", afirmou o presidente, logo ao chegar, numa de suas raras referências durante à noite sobre a demissão do ministro, de acordo com relato do senador Ney Suassuna (PMDB-PB). Durante o jantar, Fernando Henrique disse que apoiava a candidatura do senador Pedro Simon (PMDB) à presidência, fez confidências sobre conversas que teve com o ex-primeiro-ministro da Alemanha Helmut Kohl e discutiu sobre natação com o senador Eduardo Suplicy (PT-SP). No único momento formal do encontro, Fernando Henrique fez um discurso no momento em que o cafezinho foi servido, em que foi enfático ao descartar a dolarização da economia, como fez o Equador recentemente.
"Isto, para nós, é impensável; seria uma perda da soberania nacional", afirmou o presidente, segundo relato de Suplicy. Fhc anunciou ainda que criará este ano linhas de financiamento de R$ 900 milhões para ciência e tecnologia. Logo após, o presidente voltou a demonstrar senso de humor: "Passo agora a palavra para o ministro da Fazenda, Pedro Malan, e peço que ele discurse em português", afirmou.
A disposição do presidente de evitar conversas delicadas levou-o a chamar para a mesa dele os senadores oposicionistas Roberto Freire (PPS-PE) e José Eduardo Dutra (PT-SE), quebrando a distribuição feita pelo cerimonial da presidência. Escalado para sentar ao lado do presidente, o senador Jorge Bornhausen (PFL-SC), presidente nacional do partido, jantou junto com Malan
Fraga Neto e o líder do governo no Senado, José Roberto Arruda (PSDB-DF). "Lá vai o Bornhausen ficar perto de quem tem o dinheiro", brincou Fernando Henrique, provocando risadas, segundo relato de Suassuna.
Temas espinhosos, como a indicação da funcionária do Banco Central (BC) Tereza Grossi Togni para a Diretoria de Fiscalização, cujo processo está parado na Casa Civil há quase dois meses, não foram tratados. "Era uma ocasião social e não nos sentimos confortáveis em trazer à tona qualquer assunto que pudesse provocar atritos", disse Roberto Freire (PE). A comida servida foi simples: picadinho de carne bovina com farofa de cenoura. O vinho era nacional e o uísque escocês de segunda linha, envelhecido oito anos.
O clima festivo irritou Dutra. "Foi o maior mico que eu paguei", disse, acrescentando: "Deixei de comer um cuzcuz marroquino na casa do deputado Jacques Wagner (PT-BA) para comer um boi ralado e ficar ouvindo auto-promoção", reclamou o senador, da tribuna do Senado. Segundo Dutra, "o que se imaginava é que haveria um debate sobre economia com o presidente e com os ministros".
No fim do encontro, o presidente concordou, depois de bastante insistência de Suplicy, em marcar uma audiência para receber os membros da Comissão Mista da Pobreza e dar a opinião sobre o relatório apresentado em novembro. Fernando Henrique abriu espaço para um futuro encontro com parlamentares oposicionistas.

mockup