Brasília, 04 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso disse hoje que o governo irá "apertar o cinto" e pode tomar "medidas drásticas" no corte das finanças públicas - mesmo que desagradem a interesses políticos e corporativistas. Em discurso na solenidade de assinatura de contrato de telefonia fixa pela empresa canadense Cambra Telefônica, Fernando Henrique disse que o governo não permitirá que o impacto da desvalorização do real reacenda a cadeia inflacionária. Na sua opinião, esse repasse só se justifica uma única vez, em razão desta desvalorização.
O presidente voltou a criticar os "fracassômanos" que acreditam que as eventuais turbulências podem desanimá-lo. "Quando alguma coisa mais complicada ocorre, os fracassômanos imediatamente vêem o presidente triste, perturbado, desanimado"
disse. "Doce ilusão. Eu não sou dos que se desanimam, nem dos que se deixam vencer pelo que chamo de fracassomania ou pessimismo."
Fernando Henrique também referiu-se ao governador Itamar Franco (PMDB), que tem criticado a condução da política econômica. "Quando era presidente o doutor Itamar Franco, eu assumi um País em situação muito precária e trabalhei muito para que ele voltasse a ser um País promissor", disse o presidente, em uma referência à sua nomeação como ministro da Fazenda. Disse que, na época, pediu ao Congresso que cortasse, pela metade, o orçamento da União. Agora, como presidente voltou a propor novo corte das contas públicas. "Não tenham dúvidas: a execução será estrita", avisou. "O governo vai apertar o cinto e cortar o que for necessário para manter a economia flutuando, avançando e para permitir que não seja a população a pagar o preço desse ajuste, de uma maneira cruel."
Fernando Henrique disse que as finanças públicas são as "grandes responsáveis" pela situação econômica atual e que caberá ao setor público pagar o preço mais elevado do ajuste. Segundo o presidente, um dos elementos fundamentais do controle da inflação no Brasil foi a "comparabilidade" de preços. "Mesmo os efeitos eventualmente perturbadores da redução do valor do real, não vão se constituir numa cadeia que vá reacender a inflação", disse ele. "Isso é coisa do passado." De acordo com ele, quando há uma mudança de um preço, isso afeta outros preços mas, naquele momento, só uma vez será permitido. "É só uma vez", salientou. "Não é para realimentar incessantemente a cadeia inflacionária", prosseguiu ele. "Nós vamos enfrentar qualquer tentativa de volta ao passado, com tranquilidade, com confiança."
O presidente afirmou que são "ilusórios" os "escândalos" que apontam aumentos abusivos de preços. Citando informações repassadas por empresários com quem se reuniu, Fernando Henrique disse que não há condições para manter os preços altos porque ainda existe competição no mercado e oferta abundante de produtos, sobretudo os agrícolas. "Portanto, temos condições positivas para evitar os efeitos maléficos da desvalorização do real."

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